terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Regência e as Revoltas regenciais

CNDL - COLÉGIO NOTRE DAME DE LOURDES
SEGUNDO ANO
HISTÓRIA DO BRASIL
COLEÇÃO PITÁGORAS


Capítulo 1
Os caminhos da política imperial brasileira: da Regência à proclamação da República




A Regência e as Revoltas regenciais





O Período regencial brasileiro (1831 — 1840) foi o intervalo político entre os mandatos imperiais da Família Imperial Brasileira, pois quando o Imperador Pedro I abdicou de seu trono, o herdeiro D. Pedro II não tinha idade suficiente para assumir o cargo. Devido à natureza do período e das revoltas e problemas internos, o período regencial foi um dos momentos mais conturbados do Império Brasileiro.Com o Primeiro Reinado, instaurado logo depois da Independência do Brasil (1822), o Brasil passou por diversas instabilidades políticas. Depois de graves problemas internos, advindos de crises internacionais (como a disputa da Província Cisplatina e questões hereditárias em Portugal) e de instabilidades políticas no país, o Imperador Pedro I não conseguiu suportar a pressão, e se viu obrigado a abdicar do seu posto como Imperador do Brasil. No dia 7 de abril de 1831, o imperador D. Pedro I abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho, D. Pedro II, que tinha pouco mais de cinco anos.O período regencial se inicia em 17 de julho de 1831, cerca de dois meses após a abdicação de D. Pedro I. Segundo a constituição de 1824, caso um monarca não pudesse assumir, deveria ser formada uma regência composta por três pessoas, a chamada Regência Trina. O que impossibilitava a ascensão de D. Pedro II ao trono do Brasil era sua idade. Ele tinha apenas 5 anos de idade em 1831.Foi instalada a Assembléia Geral, eleita em 17 de junho de 1831 a Regência Trina Permanente, que ficou composta pelos deputados José da Costa Carvalho - marquês de Monte Alegre -, político do sul do país, João Bráulio Muniz, do norte, e novamente pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Tal composição representava, por um lado, uma tentativa de equilíbrio entre as forças do norte e do sul do país; por outro lado, a permanência do brigadeiro Francisco de Lima e Silva representava a busca pelo controle da situação e manutenção da ordem pública.Em 1864 foi autorgado o Ato Adicional, talvez a experiência mais democrática ocorrida durante o império, considerada como uma experiência republicana do império que usou elementos da Constituição dos Estados Unidos.O regente uno passou a ser eleito por voto censitário, com mandato temporário (quatro anos). A eleição e a alternância do chefe do poder executivo permitiram, entre 1835 e 1840, uma experiência considerada republicana e presidencialista no Brasil. O mesmo ato adicional criou as Assembléias Legislativas Provinciais, compostas por deputados eleitos — também por voto censitário — e com poder deliberativo no campo civil, judiciário, eclesiástico, educacional, policial, econômico e tributário. Desta forma, as províncias ganharam uma relativa autonomia legislativa. Portanto, a experiência republicana, além de presidencialista, teve um aspecto federalista (que se constituem em elementos fundamentais do regime político dos EUA).Conforme estipulado pelo ato adicional, realizou-se, a 7 de abril de 1835, a eleição para o cargo de Regente Único. Duas candidaturas destacaram-se logo de início, sendo ambos os candidatos do Partido Moderador: o paulista Diogo Antônio Feijó, apoiado pelas forças políticas do sul e, também, pela Sociedade Defensora do Rio de Janeiro; e o pernambucano Antônio Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque, cuja família era dona de cerca de um terço dos engenhos de açúcar de Pernambuco, legítimo representante da aristocracia nordestina. Feijó venceu por pequena diferença de votos (600), dos cerca de seis mil eleitores do país que, nessa época, tinha aproximadamente cinco milhões de habitantes. Segundo a Constituição brasileira de 1824, os eleitores — cidadãos ativos — eram aqueles que votavam e podiam ser votados.




O regente tomou posse no dia 12 de outubro de 1835, enfrentando oposição até dentro do próprio partido e uma grave situação de agitação no país. Notícias das províncias falavam de revoltas nos "sertões" do extremo-norte: a Cabanagem no Grão-Pará; a dos escravos Malês, na Bahia; e no extremo-sul, a Farroupilha.















A Cabanagem no Pará, 1835-1840.
A Cabanagem (1835-1840) foi a revolta na qual negros e índios se insurgiram contra a elite política e tomaram o poder no Pará (Brasil). Entre as causas da revolta encontram-se a extrema pobreza das populações humildes e a irrelevância política à qual a província foi relegada após a independência do Brasil.
De cunho popular, contou com a participação de elementos das camadas média e alta da região, entre os quais se destacam os nomes do fazendeiro Félix Clemente Malcher e do seringueiro Eduardo Angelim.
Na Cabanagem negros e índios também se envolveram diretamente no evento, insurgindo-se contra a elite política no Pará. Dentre alguns líderes populares da Cabanagem esteve o negro Manuel Barbeiro, o negro liberto de apelido Patriota e o escravo Joaquim Antônio, que manifestavam idéias de igualdade social.
Origem do nomeO nome “Cabanagem” remete à habitação (“cabanas”) da população de mestiços, escravos libertos e indígenas que participaram da Cabanagem.
O Cabano Paraense. Pintura de Alfredo Norfini, 1940. Museu de Artes de Belém.
História





Após a Independência do Brasil, a Província do Grão-Pará mobilizou-se para expulsar as forças reacionárias que pretendiam manter a região como colônia de Portugal. Nessa luta, que se arrastou por vários anos, destacaram-se as figuras do cônego e jornalista João Batista Gonçalves Campos, dos irmãos Vinagre e do fazendeiro Félix Clemente Malcher. Terminada a luta pela independência e instalado o governo provincial, os líderes locais foram marginalizados do poder. A elite fazendeira do Grão-Pará, embora com melhores condições, ressentia-se da falta de participação nas decisões do governo central, dominado pelas províncias do Sudeste e do Nordeste.






O Cabano Paraense. Pintura de Alfredo Norfini, 1940. Museu de Artes de Belém.

Em julho de 1831 estourou uma rebelião na guarnição militar de Belém do Pará, tendo Batista Campos sido preso como uma das lideranças implicadas. O presidente da província, Bernardo Lobo de Sousa, desencadeou uma política repressora, na tentativa de conter os inconformados. O clímax foi atingido em 1834, quando Batista Campos publicou uma carta do bispo do Pará, Romualdo de Sousa Coelho, criticando alguns políticos da província. O cônego foi logo perseguido, refugiando-se na fazenda de seu amigo Clemente Malcher, reunindo-se aos irmãos Vinagre (Manuel, Francisco Pedro e Antônio) e ao seringueiro e jornalista Eduardo Angelim. Antes de serem atacados por tropas governistas, abandonaram a fazenda. Contudo, no dia 3 de novembro, as tropas conseguiram matar Manuel Vinagre e prender Malcher. Batista Campos morreu no último dia do ano, ao que tudo indica de uma infecção causada por um corte que sofreu ao fazer a barba.
O movimento Cabano







Em 7 de janeiro de 1835, liderados por Antônio Vinagre, os rebeldes (tapuios, cabanos, negros e índios) tomaram de assalto o quartel e o palácio do governo de Belém, nomeando Félix Antonio Clemente Malcher presidente do Grão-Pará. Os cabanos, em menos de um dia, atacaram e conquistaram a cidade de Belém, assassinando o presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, e apoderando-se de uma grande quantidade de material bélico. O governo cabano não durou por muito tempo, pois o novo presidente, Félix Malcher - tenente-coronel, latifundiário, dono de engenhos de açúcar - era mais identificado com os interesses do grupo dominante derrotado, é deposto em 19 de fevereiro de 1835. Por fim, Malcher acabou preso. Assumiu a Presidência, Francisco Vinagre.
Em maio de 1835 chegou ao porto de Belém a fragata “Imperatriz”, enviada pelo presidente do Maranhão, a fim de terminar com o Governo revolucionário. Vinagre concordou em entregar a Presidência a Ângelo Custódio; mas, sobre pressão de Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, recuou.
Em 20 de junho de 1935, na baía de Guajará, aportou outra fragata com o novo presidente do Pará (nomeado pela Regência), marechal Manoel Jorge Rodrigues. Vinagre, contra o desejo de seu irmão Antônio, entregou o poder.
Na noite de 14 de agosto de 1835, tiveram início novos combates. A invasão de Belém se deu pelos bairros de São Braz e Nazaré. Desta forma, Belém caía novamente em poder dos revoltosos. Aos 21 anos de idade, Eduardo Angelim assumiu a Presidência da Província.

Fim da Cabanagem

Contudo, em abril de 1836 chegava o marechal José Soares de Andrea, novo presidente, nomeado pela Regência. Andrea intimou os cabanos a abandonarem Belém. Angelim e seus auxiliares concordaram.
A última fase da Cabanagem é iniciada com a tomada de Belém por Andréa, com o restabelecimento da legalidade na Província. Apossando-se de Belém, as lutas ainda duraram quatro anos no interior da Província, onde ocorria o avanço das forças militares de forma violenta até 1840.
A Cabanagem continua viva na memória do povo paraense como o movimento popular que permitiu que as classes populares chegassem ao poder instalando um governo popular ou cabano no Pará do século XIX.










Texto Complementar





A Cabanagem do Pará é o único movimento político do Brasil em que os pobres tomam o poder, de fato. É o único e isolado episódio de extrema violência social, quando os oprimidos – a ralé mais baixa, negros, tapuios, mulatos e cafuzos, além de brancos rebaixados que parecem não ter direito à branquitude, (...) assumem o poder e reinam absolutos, eliminando quase todas as formas de opressão, arrebentando com a hierarquia social, destruindo as forças militares e substituindo-as por algo que faz tremer os poderosos: o povo em armas.





(CHIAVENATO, Júlio José. Cabanagem: o povo no poder. São Paulo: Brasiliense, 1984. pp. 12-14.)





A Revolução dos Farrapos, Rio Grande do Sul, 1835-1845.
Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha são os nomes pelos quais ficou conhecida uma revolução ou guerra regional de caráter republicano contra o governo imperial do Brasil, a então província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que resultou na declaração de independência da província como estado republicano, dando origem à República Rio-Grandense. Foi de 1835 a 1845: é o conflito armado mais duradouro que ocorreu no continente americano.
A revolução, que originalmente não tinha caráter separatista, influenciou movimentos que ocorreram em outras províncias brasileiras como a Balaiada e a Cabanagem.
Antecedentes e causasA justificativa original se centrava no conflito político entre os liberais que propugnavam um modelo de estado com maior autonomia às províncias, e o modelo imposto pela constituição de D. Pedro I de caráter unitário. Além disso, havia uma disseminação de ideais separatistas, tidos por muitos gaúchos como o melhor caminho para a paz e a prosperidade.
Os farraposFarrapos ou farroupilhas eram chamados todos os que se revoltaram contra o governo imperial, e que culminou com a Proclamação da República Rio-Grandense. Era um termo considerado originalmente pejorativo. Seus oponentes imperiais eram por eles chamados de caramurus, termo em geral aplicado aos membros do Partido Restaurador no Parlamento Imperial.








Em 18 de setembro de 1835, decidiu-se em reunião, que no dia 20 de Setembro de 1835 os farrapos tomariam militarmente Porto Alegre e destituiriam o presidente provincial Fernandes Braga.
Nas cidades do interior os farrapos estavam alertas para deflagrarem a revolta. Destacado por Bento Gonçalves da Silva, o Coronel Antônio de Sousa Neto desloca-se em setembro de 1836 à região de Bagé.

Finalmente, os farroupilhas passaram a escrever a Proclamação da República Rio-Grandense que seria lida e efetivada pelo Coronel Neto perante a tropa de farrapos, em 11 de Setembro de 1836.
Após a cerimônia de Proclamação, irrompem todos em gritos de euforia, liberdade, e vivas à República, com tiros para o alto e cantorias. Foi adotada uma constituição republicana conclamando as demais províncias brasileiras a unirem-se como entes federados no sistema republicano, um hino nacional e bandeira própria do novo estado, até hoje cultivados pelo Estado do Rio Grande do Sul, também estabelecida a capital na pequena cidade de Piratini, donde surgiu uma nova alcunha, República de Piratini.











O Fim da Revolução Farroupilha





A partir de 1837 temos o início do fim da Revolta Farroupilha, e o início da Guerra dos Farrapos. Bento Gonçalves foi preso em batalha pelo exército imperial brasileiro em 26 de agosto de 1837, chegou à prisão do Forte de São Marcelo, na Bahia, mas conseguiu fugir a 10 de Setembro do mesmo ano. Chegando de volta ao Rio Grande do Sul a 16 de Novembro de 1837, assume o posto de Presidente da República Rio-Grandense.
As coisas estavam, por isso tudo, ficando mais difíceis para os Farrapos. O Barão de Caxias (futuro Duque), nomeado Presidente da Província e Comandante Supremo Imperial, empregava toda sua força de 11.000 homens, conhecimento inteligência e experiência para minar a relativa supremacia farrapa no interior.
Por fim, a 1 de Março de 1845, assinou-se a paz: o Tratado de Poncho Verde ou Paz do Poncho Verde. Entre suas principais condições estavam a anistia plena aos revoltosos, a libertação dos escravos que combateram no Exército piratinense e a escolha de um novo presidente provincial pelos farroupilhas.





A Revolta dos Malês, Bahia, 1835.
A chamada Revolta dos Malês ocorreu de 25 a 27 de Janeiro de 1835 na cidade de Salvador, capital da então Província da Bahia, no Brasil.
Consistiu numa sublevação de caráter racial, de escravos africanos das etnias hauçá e nagô, de religião islâmica, organizados em torno de propostas radicais para libertação dos demais escravos africanos. O termo "malê" deriva do iorubá "imale", designando o muçulmano, isto é, o crente islâmico.Foi rápida e duramente reprimida pelos poderes políticos e militares do governo brasileiro.





O plano de ação dos malês






Planejada por elementos que possuíam experiência anterior de combate, na África, de maneira geral. Os malês desejavam o fim do catolicismo - religião que lhes era imposta -, o assassinato e confisco dos bens de todos os brancos e mulatos e a implantação de uma monarquia islâmica, com a escravidão dos não muçulmanos. Lutavam pelo fim da escravidão, da propriedade particular da terra e do caráter oficial e exclusivo da religião católica.
Os negros eram a maioria da população da Bahia no século XIX. Habitação de negros no Brasil Imperial, de Rugendas, 1835.
De acordo com o plano de ataque, assinado por um escravo de nome Mala Abubaker, os revoltosos sairiam da Vitória (atual bairro da Barra, em Salvador) "tomando a terra e matando toda a gente branca". De lá rumariam para a Água de Meninos e, depois, para Itapagipe, onde se reuniriam ao restante das forças. O passo seguinte seria a invasão dos engenhos do Recôncavo baiano e a libertação dos escravos.








A repressão pelas autoridades e o fim da revolta
Ao mesmo tempo, as autoridades também se organizaram com rapidez, conseguindo repelir os ataques aos quartéis de Salvador, colocando em fuga os revoltosos. Ao procurar sair da cidade, um grupo de mais de quinhentos revoltosos, entre escravos e libertos, foi barrado na vizinhança do Quartel de Cavalaria em Água de Meninos, onde se deram os combates decisivos, vencidos pelas forças oficiais, mais numerosas e bem armadas.No confronto morreram sete integrantes das tropas oficiais e setenta do lado dos revoltosos. Duzentos e oitenta e um, entre escravos e libertos, foram detidos no Forte do Mar e levados aos tribunais. Suas condenações variaram entre a pena de morte para quatro dos principais líderes, os trabalhos forçados, o degredo e os açoites.






Trecho de um documento dos malês. Museu Histórico da Bahia


À época, os africanos foram proibidos de circular à noite pelas ruas da capital e de praticar as suas cerimônias religiosas típicas.
Apesar de rapidamente controlada, a Revolta dos Malês serviu para demonstrar às autoridades e às elites o potencial de contestação e rebelião que envolvia a manutenção do regime escravocrata, ameaça que esteve sempre presente durante todo o Período Regencial e se estendeu pelo Governo pessoal de D. Pedro II.


Sabinada





A Sabinada foi uma revolta autonomista que ocorreu entre 6 de novembro de 1837 e 16 de março de 1838, na então Província da Bahia, na época do Brasil Império.







Antecedentes
A tradição de lutas por autonomia política na Bahia remonta à Conjuração Baiana (1798), às lutas pela Independência da Bahia (1822-1823), à Federação do Guanais (1832) e à Revolta dos Malês (1835).
Durante o Período regencial (1831-1840), o conflito se estabeleceu em torno da questão da centralização monárquica e do federalismo republicano, mobilizando principalmente setores das camadas médias urbanas - comerciantes, profissionais liberais e oficiais militares.
Os ânimos na capital baiana se acirraram com a renúncia do Regente Diogo Antônio Feijó (1837) e o projeto da lei de interpretação do Ato Adicional, cuja discussão se arrastou de 1837 a 1840.





A revolta





O movimento aproveitou a reação popular contra o recrutamento militar imposto pelo Governo Imperial, liderado pelo médico e jornalista Francisco Sabino Vieira.
Na madrugada de 6 para 7 de novembro de 1837, Sabino e os que o apoiavam proclamaram a "República Baiana". Mesmo provisória, decretada até que o jovem Pedro de Alcântara atingisse a maioridade, ela rompia com o Governo Imperial e destituía o Governo Provincial.
O 3° Corpo da Artilharia de Posição, lotado no Forte de São Pedro, levantara-se, dominando aquela fortificação. Durante a madrugada, o Governo Provincial tentou sufocar o levante, despachando trezentos soldados armados para a Praça da Piedade. Entretanto, em vez de atacar os revoltosos, a tropa legalista debandou e também aderiu ao movimento.
Diante destas notícias, o então Presidente da Província, Francisco de Souza Paraíso, e o Comandante das Armas, tenente-coronel Luís de França Pinto Garcez, abandonaram a cidade e se refugiaram num brigue ancorado na baía de Todos os Santos. Isolado, o Chefe de Polícia, Francisco Gonçalves Martins, tomou um saveiro e dirigiu-se para o Recôncavo, em busca da proteção do coronel Alexandre Gomes de Argolo Ferrão, senhor do Engenho Cajaíba e 1° barão de Cajaíba.
O edifício da Câmara Municipal foi ocupada pelos revoltosos, tendo à frente Francisco Sabino Vieira, o político João Carneiro da Silva Rego e os militares José Duarte da Silva e Luiz Antônio Barbosa de Almeida. Na ocasião Francisco Sabino propôs que o nascente Estado republicano tivesse como presidente o advogado Inocêncio da Rocha Galvão, então exilado nos Estados Unidos da América, e como vice-presidente João Carneiro Rego. O próprio Sabino, como secretário de governo, ditou a primeira ata da recém-criada "República Bahiana", que contou com cento e quatro assinaturas. Foram nomeados Ministro da Guerra Daniel Gomes de Freitas, da Marinha Manoel Pedro de Freitas Guimarães.
Após dominar alguns quartéis em Salvador, os rebeldes não lograram obter a adesão dos senhores de terras do Recôncavo, nem encontraram apoio significativo junto à população escrava, permanecendo restritos aos limites urbanos da cidade, bloqueada.





A repressão
Sem maior apoio popular, esse fato facilitou a repressão por parte do governo imperial, que cercou a capital em uma operação combinada terrestre e marítima (março de 1838). Cerca de mil pessoas pereceram nos combates. Os rebeldes que sobreviveram foram capturados e julgados por um tribunal composto pelos donos de latifúndios da província. Três dos líderes foram executados e os outros três deportados, entre eles Francisco Sabino Vieira, que acabou os seus dias na Fazenda Jacobina, na então remota província do Mato Grosso. Outros, como Daniel Gomes de Freitas, Francisco José da Rocha, João Rios Ferreira e Manoel Gomes Pereira, conseguiram evadir-se e depois juntaram-se à Revolução Farroupilha.





















A Balaiada no Maranhão, 1838-1841.





A Balaiada foi uma revolta de fundo social, ocorrida entre 1838 e 1841 no interior da então Província do Maranhão, no Brasil. A Balaiada foi feita por pessoas humildes, pobres da região, escravos, fugitivos e prisioneiros. A definitiva pacificação só foi conseguida com a anistia concedida pelo imperador aos revoltosos sobreviventes.







Boa parte dos revoltosos da Balaiada eram negros fabricantes de balaios, isto é, cestos de tala e palha, como na fotografia litografada acima de Victor Frond, 1859.
Antecedentes Durante o Período regencial brasileiro o Maranhão, no campo político ocorria uma disputa no seio da classe dominante pelo poder, que se refletia no Maranhão opondo, por um lado, os liberais (bem-te-vis) e os conservadores (cabanos).











O movimento da Balaiada





O evento que deu início à revolta foi a detenção do irmão do maranhense Raimundo Gomes, da fazenda do padre Inácio Mendes (bem-te-vi), por determinação do sub-Prefeito da povoação de Manga, José Egito (cabano). Contestando a detenção do irmão, Raimundo Gomes, com o apoio de um contingente da Guarda Nacional, invadiu o edifício da cadeia pública da povoação e libertou-o, em dezembro de 1838. Em seguida, Raimundo Gomes, com o apoio de Cosme Bento, ex-escravo à frente de três mil africanos fugidos, ocupou em 1839 a cidade de Caxias, segundo maior centro comercial do Maranhão. Alí organizaram um governo provisório, que prometia ser fiel ao rei e a religião, mas os balaios exigiam a expulsão dos portugueses da provincia e o fim da guarda nacional.
Raimundo Gomes afixou na Vila da Manga (MA) um manifesto contendo suas reivindicações:
“Ilmo. Sr. Capitão Manuel Alves d´Abreu. Vila da Manga, 15 de dezembro de 1838. Como Acho nesta Vila com a reunião do Povo e bem do sossego publico como conta do Artigo 1.º) Que seja considerada a constituição e garantindo os cidadãos. 2.º) Que seja admitido o Presidente de Provincia e entregue o governo ao Vice-Prezidente. 3.º) Que seja abolidos os Prefeitos e Subs-Prefeitos, Comissarios ficando em Vigorar as Leis geraes e as Provincias que não forem de encontro a Constituição do Império. 4.º) Que sejam expulsados os portuguezes da Provincia dentro de 15 dias com exceção dos cazados com familias brasileiras e os de 60 anos para cima.” Raimundo Gomes Vieira – Comandante da Forca armada.Vila da Manga 15 de dezembro de 1838.
(JANOTTI, Maria e Lourdes Mônaco. A Balaiada. São Paulo: Brasiliense, 1987. pp. 44-45.)





A repressão





Para combater os balaios foi nomeado Presidente e Comandante das Armas da Província, o coronel Luís Alves de Lima e Silva, que venceu os revoltosos na Vila de Caxias. Por isso foi promovido a General e recebeu o seu primeiro título de nobreza , Barão de Caxias, e inicia aí, a sua fase de “O PACIFICADOR”.
Apesar das tentativas de manipulação por parte dos bem-te-vis, o movimento adquiriu feição própria, saindo de controle. Diante da proporção alcançada, envolvendo as camadas populares, as elites locais se aproximaram em busca de estratégias para derrotar os revoltosos. Diante desse esforço, o governo regencial enviou tropas sob o comando do então Coronel Luís Alves de Lima e Silva, nomeado Presidente da Província. Conjugando a pacificação política com uma bem sucedida ofensiva militar, em uma sucessão de confrontos vitoriosos obtida pela concessão de anistia aos chefes revoltosos que auxiliassem a repressão aos rebelados, obteve a pacificação da Província em 1841.
Os líderes balaios ou foram mortos em batalha ou capturados. Destes últimos, alguns foram julgados e executados, como Cosme Bento, por enforcamento.


Fonte: http://novahistorianet.blogspot.com/









Conheça as principais características do Período Regencial brasileiro









Professor apresenta nesta aula os principais conceitos relativos a um dos mais agitadas etapas da história brasileira, o período regencial compreendido entre 1831 e 1840. Confira a aula em video.









Saiba mais sobre as Revoltas Regenciais









Aprenda as principais características das revoltas regenciais.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

As Capitanias Hereditárias

COLÉGIO NOTRE DAME DE LOURDES - CNDL
PRIMEIRO ANO - PRIMEIRO BIMESTRE
HISTÓRIA DO BRASIL
A AMÉRICA PORTUGUESA
A POLÍTICA COLONIZADORA







Foi em março de 1532, quando Martim Afonso de Souza ainda estava em São Vicente, que o rei D. João III decidiu empregar no Brasil o mesmo sistema de colonização que já havia dado certo na ilha dos Açores e na ilha da Madeira. A sugestão lhe foi dada por Diogo de Gouveia, humanista português, residente em Paris, onde dirigia o respeitado colégio Santa Bárbara.

Apesar da experiência bem sucedida nas ilhas, o império ultamarino português estava mais preparado e interessado em descobrir, conquistar, comercializar e, eventualmente, em pilhar, do que em colonizar. Mas a ameaça francesa persistia e D. João III compreendeu que a única maneira de preservar o Brasil era dar início a sua efetiva povoação. Como a Coroa já despendera fortunas na conquista da Índia, o rei optou por dividir as terras brasileiras em 14 capitanias hereditárias, totalizando 15 lotes. Eles foram doados a figuras importantes da Corte - que, de imediato e compulsoriamente tornavam-se responsáveis pela sua colonização.




Pela absoluta falta de interesse da alta nobreza lusitana, as capitanias brasileiras acabaram sendo concedidas a membros da burocracia estatal e a militares e navegadores ligados à conquista da Índia.

Além das vastas porções de terra (cada lote tinha, em média 250 quilômetros de largura, estendendo-se até o limite ainda indemarcado de Tordesilhas, em algum lugar no interior do continente misterioso), os donatários receberam também poderes “majestáticos”. Podiam legislar e controlar tudo em suas terras – menos a arrecadação de impostos reais. Em compensação, deveriam arcar com todas as despesas da colonização. Os lotes foram repartidos aleatoriamente, levando em conta apenas acidentes geográficos da costa, mas ignorando por completo a divisão territorial estabelecida há séculos pelas tribos indígenas – e, acima de tudo, desconsiderando se eram tribos aliadas ou hostis aos portugueses. Tamanho descuido custaria caro aos portugueses.




Dos 12 donatários, quatro jamais estiveram no Brasil. Dos oito que vieram, três morreram em circunstâncias dramáticas; um outro (Pero de Campos Tourinho) foi acusado de heresia, preso por seus próprios colonos e enviado para os tribunais da Inquisição em Portugal; três pouco se interessaram por suas propriedades e apenas um, Duarte Coelho – que fora o primeiro navegador europeu a chegar à Tailândia -, realizou uma administração brilhante, em Pernambuco.

Dos 15 lotes, quatro nunca foram ocupados (Rio de Janeiro, Ceará, Ilhéus e Santana); em quatro, as tentativas de colonização falharam (Rio Grande do Norte, São Tomé e as duas do Maranhão); em cinco, a precariedade dos estabelecimentos facilitou sua destruição por nativos hostis (Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Itamaracá e Santo Amaro); e em apenas dois, São Vicente e Pernambuco, a colonização vingou desde os primeiros anos.

Apesar do balanço desfavorável – e de todos os vícios que legaram à estrutura agrária do Brasil -, as capitanias representaram a primeira e decisiva incursão dos portugueses no trópico e definem o embrião da futura ocupação do Brasil. Ainda assim, numa perspectiva eminentemente pessoal, a saga dos donatários lhes foi terrivelmente pesada. Tanto é que Duarte Coelho, o mais bem-sucedido dos capitães do Brasil, escreveu para o rei; “Somos obrigados a conquistar por polegadas as terras que Vossa Majestade nos fez mercê por léguas”. Aparentemente, porém, os problemas esmagadores enferntados pelos donatários não comoveram os burocratas da Corte, a ponto de um deles ter, em 1544, anotado secamente em um relatório destinado ao rei; “O Brasil não somente não rendeu nada de vinte anos até agora o que soía, mas tem custado a defender e povoar mais de 80.000 cruzados”.





BUENO, Eduardo. Brasil: uma história cinco séculos de um país em construção. As capitanias hereditárias. Editora Leya. São Paulo, 2010. p. 44

Saiba mais sobre as Capitanias Hereditárias

O professor de História, Helder Santos comenta a importância das capitanias hereditárias. As capitanias hereditárias foram implantadas no Brasil em 1534 pelo rei de Portugal, Dom João III, o colonizador. Confira a aula em video.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CNDL - SEGUNDO ANO
HISTÓRIA DO BRASIL
COLEÇÃO PITÁGORAS




Capítulo 1
Os caminhos da política imperial brasileira: da Regência à proclamação da República



DEBRET, Jean Baptiste. Pano de boca executado para a representação extraordinária dada no teatro da corte por ocasião da coroação de D. Pedro I. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Paris. 1834/35.
Problematização do tema

Este capítulo trata de dois contextos históricos distintos. O primeiro, o período regencial, inaugurado após a abdicção de D. Pedro I, em 1831, embora tenha sido considerado por muitos um “ensaio republicano”, revelou-se a bem da verdade, um contexto turbulento, em que as medidas descentralizadoras permitiram desmandos locais e revoltas violentas em muitas províncias.
Essas medidas descentralizadoras, principalmente a Reformulação do código do Processo civil de 1832 e o Ato Adicional de 1834, levaram ao fortalecimento do poder local, até então fortemente controlado pelo autoritarismo de D. Pedro I, e geraram arbitrariedades, em especial dos juizes de paz.
Uma sensação de anarquia perturbava os políticos que temiam o descontrole das províncias, a fragmentação da unidade territorial, a tomada do poder pelo povo e escravos. A única forma de resolver essa questão era restaurar a ordem anterior, colocar um ponto final nas medidas descentralizadoras. A essa “restauração” da ordem foi dado o nome de Regresso.
A solução que os regressistas encontraram para restaurar a ordem foi o Golpe da Maioridade, que levou o jovem D. Pedro II ao poder, dando início ao Segundo Reinado, o outro contexto que abordaremos sucintamente.
O Segundo Reinado (1840-1889) foi um longo período de paz, quebrada apenas pelas revoltas liberais de Minas e São Paulo (1842); pela Revolução Praieira (1848) e pela Guerra do Paraguai (década de 1860).
Já na década de 1870, iniciava-se o movimento republicano, mesclado com o movimento abolicionista e um reconhecimento, por parte do Exército, pós-Guerra do Paraguai, da sua importância nos negócios do Estado. Esses movimentos, que se tornaram mais agudos nas décadas subsequentes, foram minando o poder do imperador, ao que se somou a indisposição de D. Pedro II com os bispos da Igreja Católica. Por isso, é comum afirmar que as questãos militar, religiosa e escravocrata foram os responsáveis pela queda da monarquia e pela proclamação da República, em 1889.

Pense sobre o que acabou de ler e discuta:

1. Por que será que as regências revelaram-se um período turbulento e anárquico:

2. O que você entende pela afirmação de ter sido a Regência um "ensaio republicano"?

3. Qual foi a solução utilizada pelos regressistas para colocar um ponto final no período regencial?

4. Por que somente após a Guerra do Paraguai o Exército teve a sua importância reconhecida?

5. Quais seriam as razões da queda da Monarquia e da proclamação da República?



Saiba mais sobre os caminhos da política imperial brasileira entre 1831 e 1889




Resumo de algumas das principais características do período Regencial (1831-1840) e do Segundo Reinado (1840-1889).

CNDL - PRIMEIRO ANO
HISTÓRIA DO BRASIL
COLEÇÃO PITÁGORAS








HUNT, G. Sick slaves. 1822. Biblioteca Nacional (Brasil)



"Eu o Rei faço saber a vós Tome de Souza fidalgo de minha casa que Vendo Eu quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobrecer as capitanias e povoações das terras do Brasil e dar ordem e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando para exalçamento da nossa Santa Fé e proveito de meus reinos e senhorios e dos naturais deles ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte em um lugar conveniente para daí se dar favor e ajuda às outras povoações e se ministrar Justiça e prover nas coisas que cumprirem a meu serviço e aos negócios de minha fazenda e a bem das partes e por ser informado que a Bahia de Todos os Santos é o lugar mais conveniente da costa do Brasil para se poder fazer a dita povoação e assento assim pela disposição do porto e rios que nela entram como pela bondade abastança e saúde da terra e por outros respeitos hei por meu serviço que na dita Bahia se faça a dita povoação e assento e para isso vá uma armada com gente artilharia armas e munições e todo o mais que for necessário. E pela muita confiança que tenho em vós que em caso de tal qualidade e de tanta importância me sabereis servir com aquela fieidade e diligência que se para isso requer hei por bem de vós enviar por governador às ditas terras do Brasil no qual cargo e assim no fazer da dita fortaleza tereis a maneira seguinte da qual fortaleza e terra da Bahia vós haveis de ser capitão."



1548 - REGIMENTO TOMÉ DE SOUZA




Capítulo 1


A Política colonizadora

Problematização do tema

Confira algumas posições da historiografia brasileira acerca da colonização portuguesa







Sobre o texto das páginas 84 e 85 discuta e responda:

* Qual a posição defendida pelo texto sobre o processo de colonização portuguesa?

* Em que momento do texto ele deixa claro seu posicionamento:

* Qual é o sentido comum que prevalece na cultura histórica e nos materiais escolares sobre a colonização portuguesa?

* Por que as interpretações mais recentes, citadas no texto, não circulam da mesma forma em livros, revistas e jornais?



Pré-1530: o sistema asiático de exploração

Imediatamente após a chegada dos portugueses na nova terra, eles ainda estavam muito envolvidos como o comércio das especiarias com o Oriente. Além disso, havia o fato de na nova terra não haver mercadorias produzidas pelos nativos que pudessem ser comercializadas. Por isso, não iniciaram sua colonização de imediato.

O único produto disponível era o paú-brasl, uma madeira que despertava interesse comercial na Europa como corante e como material para a construção de navios.

Os portugueses decidiram, então, adotar, na terra recém-descoberta, o sistema asiático de exploração, isto é, a construção de feitorias ao longo da costa para comercializar o pau-brasil. A mão de obra utilizada foi a indígena por meio do sistema de escambo, ou seja, a troca do trabalho por objetos de pouco valor como quinquilharias que encantavam os indígenas.





O pau-brasil, monopólio arrendado da Coroa portuguesa, foi sistematicamente contrabandeado durante todo o período de sua extração.



Confira as principais características do período pré-colonial (1500-1530)



Professor explica o período pré-colonial brasileiro. Confira a aula em video.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011


Diferença de valores e culturas entre as gerações pode virar problema no trabalho

A convivência das gerações X e Y, entre profissionais de diferentes idades e valores, provoca problemas no mercado de trabalho e influencia a forma de relacionamento nas empresas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Conheça a fascinante história da cidade de São Paulo


A maravilhosa história de São Paulo, sua fundação, evolução e o momento atual. Mostrado através de obras de arte, unindo a arte e a história numa apresentação cativante.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Passeio pelo mundo antigo revela a magia do Fórum Romano


Agora vamos relaxar. Prepare-se para conhecer o mundo antigo. Os correspondentes Maurizio Della Constanza e Ilze Scamparini vão nos levar para passear pelo Forum Romano.
O Fórum Romano era o centro comercial, político e religioso da antiga Roma. Nele, foram erguidos vários templos dedicados aos deuses pagãos, como o templo de Saturno.

Fonte: Globo videos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O coronel e o lobisomem

O coronel e o lobisomem – trecho para análise:

José Atanásio

“Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira. (...)

Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pêlo e raiva. (...)

Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:

- São Jorge, Santo Onofre, São José!

Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azevedo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente, que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de fazer macaquices que nunca cuidei que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei.”

(CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem; deixados do Ofício Superior da Guerra Nacional, Ponciano de Azevedo Furtado, natural da praça de Campos dos Goitacazes, 20, ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976, p.178-9.)

Memória da Narrativa

Dizem que lobisomem seria uma criatura lendária, um homem que, de quando em quando, transforma-se em lobo, ficando maior e mais forte que o canino e ávido por carne humana. A hipertricose (aumento da espessura do pêlo do corpo), uma doença rara, poderia ocasionar boa parte das visões de lobisomens (uma mistura de lobo e de homem) na idade média.

Há várias histórias em todo o mundo sobre essa fera da criptozoologia. Uma delas é a do Lobisomem em Campos dos Goitacazes, narrada por João Oliveira: “... na localidade de Baixa Grande, zona rural de Campos dos Goitacazes, RJ, um vigia da Usina Baixa Grande matou com um tiro certeiro um enorme animal que rondava a Usina. Com medo de que o animal ainda estivesse vivo, não se aproximou. Chamou um policial de plantão num posto policial próximo. Qual a sua surpresa, ao descobrir que o enorme animal nada mais era que um morador local, de 68 anos, um cidadão que há anos residia sozinho, um sujeito esquisito e de pouco conversa. Esse fato, além de verdadeiro, tem algo assustador: o policial afirma que, ao chegar no local, ainda viu as mãos do lobisomem voltar à forma natural humana. E mais, com vários depoimentos tomados no local, de pessoas que juravam haver visto por anos a presença de tal entidade, as autoridades arquivaram o caso, pois ficou comprovado que o vigia havia realmente matado um lobisomem."

José Cândido de Carvalho (1914-1989) – natural de Campos dos Goitacazes, no norte do Rio de Janeiro – é dono de um estilo absolutamente inconfundível ao retratar personagens e situações burlescas que nos levam ao riso solto, seguido de um certo impacto que nos faz refletir sobre nossa sociedade, nosso país. O coronel e o lobisomem, publicado em 1964, é tido pela crítica como uma das obras-primas do moderno romance brasileiro, a qual foi levada para as telas de cinema nos tempos recentes. Descontraído, José Cândido procura se expressar de forma clara e objetiva, sem perder o tom hilariante de uma boa prosa. Para que sua narrativa se fixe na idéia inconfundível de uma boa e interessante história, ele usa recursos expressivos, exigidos pela razão lógica (sintática), representados pela expressão gráfica da respiração na frase, das suspensões, dos movimentos da voz. Sua linguagem é simples, criativa (inventiva) e coloquial.

Possuidor de um forte poder de reavivar palavras e ressuscitar verbetes de expressão popular, a plástica de sua narrativa se torna agradável e dá novo sentido a palavras que parecem ser bizarras na oralidade cotidiana. Em O coronel e o lobisomem, Cândido narra um confronto de um militar com um exótico animal, que por crendice popular teria fincado pés nas paragens de sua terra natal. Ao descrever as peripécias do coronel Ponciano, como se quisesse fazer parte da história dele, José Cândido enaltece as bravatas do militar e o coloca na condição de destemido, porém, com desfecho hilariante. Isso porque o coronel nem sempre age de acordo com a preparação militar que diz haver recebido, mas foge de qualquer enfrentamento, com a impressão de ser estrategista e mais audacioso que a lendária besta.

Criação literária

Sua narrativa incomum chamou a atenção de grandes escritores. Veja, por exemplo, o comentário de Raquel de Queiroz sobre a obra de José Cândido de Carvalho:

“E tem mais: se a criação literária de JCC é importante, importantíssimo igualmente é o homem na sua linguagem. De tal jeito importante que não sei de ninguém, no momento, que renove o idioma como o renova ele. Vira e revira a língua, arrevesa as palavras, bota-lhes rabo e chifre de sufixos e prefixos, todos funcionando para uma complementação especial de sentidos, sendo, porém, que nenhuma provém de fonte erudita, ou não falada: nenhum é pedante ou difícil, tudo correntio, tudo gostoso, nascido de parto natural, diferente só para maior boniteza ou acuidade específica. No léxico de Zé Cândido não aparece uma palavra que não seja possível; se ela não havia até aqui, estava fazendo falta. No mais, o que ele faz principalmente é usar a palavra no sentido novo, ou imprevisto, ou desacostumado. Mas no cabo fica tudo tão bem encartadinho e num dizer tão fiel da idéia que se destina a exprimir, que a gente fica pensando por que é que já não se dizia aquilo assim, antes.”

É importante notar a relação apontada por Raquel entre rabo e chifre e prefixos e sufixos. Nesse simpático e descontraído texto de uma das mais brilhantes romancistas da engajada literatura brasileira dos anos 30, Raquel usa dos mesmos recursos estilísticos de JCC para mencionar os afixos gramaticais. Rabos e chifres são respectivas metáforas de sufixos e prefixos. O sufixo é comparado a um rabo por se agregar ao final de uma palavra; o prefixo, a um chifre, por anteceder ao radical de uma palavra.

Mas Raquel não pára por aí. Outra observação importante é que na visão dela as palavras de Zé Cândido não provêm de “fonte erudita ou não falada”. Diante de tal afirmação, sugere que tais verbetes provêm de fonte popular ou da tradição oral. Com isso, ela apresenta duas possibilidades de criação da palavra: uma ligada à forma, outra ligada ao contexto. Ao criar sentido novo para palavras antigas, JCC explora o uso incomum de certos verbetes. É nesse sentido que se pode afirmar que Cândido é um grande explorador de neologismos em sua obra. O texto é rico em neologismo porque explora a criação de uma palavra pelo acréscimo de rabo e chifre (sufixo e prefixo), pela junção de radicais ou de elemento de composição ou por seu uso com um sentido novo, ou imprevisto ou desacostumado, como enfatiza a romancista. É importante salientar que o acréscimo de afixos ou a junção de radicais trabalha com as formas das palavras; já o sentido novo depende do contexto em que a palavra é empregada.

Segundo Raquel de Queiroz, o resultado desse trabalho com a linguagem é muito bom, a tal ponto que ficamos pensando “por que é que já não se dizia aquilo assim, antes”. Essa sensação que o novo provoca nos leitores mais atentos é o que determina o verdadeiro valor do neologismo lingüístico. Para que isso faça sentido, a principal qualidade que um neologismo deve apresentar para atingir esse objetivo é a existência de um perfeito casamento entre a palavra e o que ela exprime. Ou seja, provocar a sensação da plena compreensão do assunto, ao fazer uso de palavras com um dizer tão fiel da idéia que se destina a exprimir. Diante do valor desses neologismos ficamos tão tentados a exercer o direito de empregá-los, que a própria Raquel de Queiroz, talvez envolvida pela linguagem de José Cândido, em duas palavras, faz uso de sufixos para potencializar a expressividade de suas observações sobre o recurso do autor: boniteza e encartadinho. É brilhante a forma como ela se expressa ao dizer encartadinho, ao invés de dizer “muito bem encartado”, do mesmo modo que pertinho significa “muito perto”.

Expressividade do texto

A oralidade possui diferentes recursos para expressar uma idéia que vai além das formas gramaticais. Quando o enunciatário transmite sua mensagem de forma oral, utiliza palavras escolhidas na memória presente e as organiza para dar maior expressividade ao tema enunciado. Flexível, a função oral permite inserir no discurso alguns artifícios que propiciam a boa comunicação, ou seja, recursos como o olhar, o tom de voz, os gestos, as pausas, a entonação.

Já a comunicação escrita é mais limitada, sem poder recorrer a esses recursos expressivos corporais. Para que a narrativa seja mais apropriada ao sentido do enredo e mais bem comunicada, a escrita se vale de outros recursos mais adequados aos símbolos lingüísticos, já que não pode amparar-se nos recursos da fala. Como contribuição para a boa organização das frases, dos períodos, das idéias enfim, entram em cena componentes muito especiais: os sinais de pontuação, que determinam a expressividade do texto.

Celso Pedro Luft, em A vírgula – considerações sobre o seu ensino e o seu emprego –, assim fala sobre a pontuação da língua portuguesa: “A nossa língua portuguesa – a pontuação em língua portuguesa – obedece a critérios sintáticos e não prosódicos. Sempre é importante lembrar isso a todos aqueles que escrevem para que se previnam de bisonhas vírgulas de ouvidos. Essa ligação entre pausa e vírgula deve ser a responsável pela maioria dos erros de pontuação. E penso que está na hora de desligar as duas coisas. No entanto, mesmo em gramáticas recentes, e de autores bem conceituados, persiste a ilusão. Quantas vezes fazemos pausa entre sujeito e verbo, entre verbo e complemento. E no entanto é elementar que nessas estruturas não cabe vírgula. Por quê? Porque a nossa virgulação é de base sintática, e não separa o que é sintaticamente ligado.”

Para enriquecer as qualidades do lobisomem, por exemplo, o narrador usa muito o recurso das vírgulas, para separa os apostos. Três trechos demonstram isso com clareza: “Adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pêlo e raiva.”, “... quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro...”, e “O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro...”. Também, a função da vírgula no último período do texto “No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei.” serve para separar duas orações de estruturas semelhantes. Aliás, essa construção enfatiza a intenção de o coronel permanecer onde bem estava.

Outro exemplo do uso de pontuação expressiva no texto, demarcado pelo ponto de exclamação, está no trecho em que ele invoca os santos dos quais é devoto: “- São Jorge, Santo Onofre, São José!”.

Marcadores da narrativa e da oralidade

Há muito, muito mesmo de oralidade no texto. A bem da verdade ele é rico em recursos prosódicos, pois são bravatas, episódios bizarros, nos quais o coronel esteve envolvido, em franco desafio ao seu preparo militar. As referências que ele faz ao lobisomem, como “peste, penitente, sabidão, assombrado” são marcações claras da oralidade, no caso de quem conta uma história. Como se contasse uma anedota, ele não se preocupa em manter o paralelo dos codinomes; em um dado momento, ele trata a besta de pessoa, ao dizer “... uma súcia deles e não uma pessoa sozinha”.

As comparações também são características da oralidade e foram empregadas pelo autor para enriquecer as ilustrações das imagens que ele procura formar na cabeça do interlocutor. “Dei um pulo de cabrito”, uma forma descontraída de dizer que se desviou ou se distancio; “Era trabalho de gelar qualquer cristão”, como algo assustador; “Cheio de voltas e negaças”, no sentido de esquivar-se. “Deu ele de executar macaquices”, como mudança de hábito, em movimentos bruscos. E daí por diante.

O tempo é bem apropriado ao texto, com o objetivo de criar o clima de suspense. Diz a lenda que o lobisomem se transforma numa noite de lua cheia, na terça-feira ou na sexta-feira. Na instância da narrativa observamos uma clara indicação de tempo no início do trecho “Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira”. Quanto ao espaço, a ambientação em cenário rural se revela adequada ao fato narrado: “Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca,...”. O que se percebe é que o coronel perseguiu o lobisomem por um bom tempo (“Já um estirão era andado...”), até encontrá-lo num ambiente campestre, longe da cidade. Em Goitacazes as narrativas da aparição do lobisomem sempre fizeram referências a uma região rural, afastada da cidade.

O narrador é o próprio personagem, que se defronta com o lobisomem e se apresenta no trecho “Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azevedo Furtado”. A apresentação é feita na terceira pessoa, porque há um claro interesse de autovaorização; o personagem apresenta-se dando o nome completo, o que demonstra ser pessoa de família importante (não se trata de qualquer cristão, é Ponciano de Azevedo Furtado). No início do livro, Ponciano deixa claro ter origem de família rica e importante: “Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino.”.

Da instância lexical

Além do neologismo e da transformação de palavras, podemos destacar pelo menos quatro palavras no texto em que os sufixos funcionam para “uma complementação especial de sentido”: devocioneiro, brabento, galhofista e verdal, ambas com sufixos distintos entre si. Devocioneiro = devoto (o sufixo –eiro indica profissão, ofício, ocupação, como em barbeiro, carteiro, porteiro). Brabento = brabo (o sufixo –ento significa “provido ou cheio de”, como em ciumento, avarento, barulhento. Galhofista = galhofeiro, gozador, brincalhão (o sufixo –ista indica ocupação, ofício, prática, como em motorista, tenista, violonista). Verdal, cujo sinônimo mais próximo seria matagal (o sufixo –al indica quantidade, cultura de vegetais, como em areal, em bananal, em arrozal).

Do ponto de vista da transformação destacamos uma sutil e rica substituição do verbo cuidar, empregada na frase “... cuidou que o mato estivesse ardendo”. O sentido aqui empregado é o mesmo que empregou Camões no quarto verso da segunda estrofe do seu mais expressivo soneto sobre o Amor “É cuidar que se ganha em se perder”. Distante da compreensão denotativa para “atentar, preocupar-se, prestar atenção, tomar cuidado, vigiar”, cuidar foi empregado como verbo transitivo direto, no sentido de supor, julgar. É possível dizer que a escolha vocabular é um elemento de composição do personagem, pois mostra a formação e a origem dele (região do país, poder, autovalorização, humor, tendência ao exagero etc.).

Ainda sobre o artifício dos sentidos contrários, vemos no trecho “Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau” o uso adequado de palavras com mudança de significados, porém, próximas da idéia que se transmite. Especial, por exemplo, significa “característico, exclusivo, peculiar, particular, privado etc”. Nesse caso foi empregado como especialista, conhecedor, uma atribuição particular do estado de conhecimento do indivíduo. Como o radical é o mesmo, a idéia é transmitida e bem compreendida, embora a palavra empregada seja outra. Armadilha de pouco pau nos remete à idéia de dificuldade de baixa complexidade, ou seja, dificuldade fácil de contornar, de escapar. Por isso, por ser ele um especialista em assuntos de defesa (militar) não cairia na estratégia do lobisomem de o fazer pensar que a besta estava em bando, para intimidar o “valente” coronel.

Os recursos expressivos do texto

O autor usa de alguns recursos estilísticos expressivos para enriquecer a história de heroísmo do coronel. Ele faz uma apresentação hiperbólica do lobisomem, como se quisesse enaltecer as qualidades do adversário, para elevar a condição de superioridade de Ponciano diante dos campeiros. Ao introduzir o adversário, ele se refere a “... figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pelo e raiva...”, “Ciscava o chão de soltar terra e macega no longo de dez braças ou mais.”, “Dos olhos do lobisomem pingava labareda...”, “Tanta chispa largava o penitente...”, “... queria que eu pensasse ser uma súcia deles...”. A intenção de Ponciano era fazer crer que estava diante de um animal contra o qual nenhum mortal teria coragem de levantar-se, do qual ele não temia. Mas seu medo fica evidente no seguinte trecho: “Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira”. Ele leva um susto de medo, mas diz “dei um pulo de cabrito”, para atenuar seu temor. E para dizer que isso não significava tanto, ressalva que “preparado estava para a guerra do lobisomem”. Todavia, “no alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei.”.

Como recurso para não revelar esse sentimento inferior, apesar de apresentar o lobisomem como um ser aterrorizador, uma figura assustadora, ele se valoriza, diminui os atributos do animal, para engrandecer-se, e até cria uma intenção para o lobisomem em querer enredá-lo em uma armadilha: “O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau”. Essa seria uma justificativa para ele não descer do galho e enfrentar o animal.

Enfim, ao usar de variedades para chamar o lobisomem de “Figurão de cachorro” (da família de caninos), “a peste” (como aquilo que age para contaminar os outros), “o penitente” (que carrega maldição consigo, ou que penitencia), “o assombrado” (decorrente de uma maldição), “o galhofista” (que é dado a brincadeiras e zombetearias), o narrador procura produzir no texto o efeito de mostrar ao interlocutor as muitas facetas do animal, detalhes assustadores e surpreendentes, além de emprestar ao caso um sabor especial.

Conclusão do ponto de vista estilístico.

O texto fala do encontro do coronel com um lobisomem. O narrador é o próprio coronel, que ao falar de si mesmo, introduz seu nome completo. Ao usar a terceira pessoa em lugar da primeira ressalta não sua pessoa, mas a personagem que encarna o coronel valente, que enfrentaria uma fera, cuja guerra não seria para qualquer cristão, mas, sim, para Ponciano de Azevedo Furtado.

O léxico é bem planejado e se posiciona em dois eixos: o da Hipérbole (com relação ao animal) e o do eufemismo (com relação ao coronel). O narrador exagera os atributos do animal que enfrentaria. Expressões como “... figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pelo e raiva...”, “Ciscava o chão de soltar terra e macega no longo de dez braças ou mais.”, “Dos olhos do lobisomem pingava labareda...”, “Tanta chispa largava o penitente...”, “... queria que eu pensasse ser uma súcia deles...” enfatizavam a dimensão de perigo que oferecia seu oponente, de quem ele dizia não ter medo, porém, sua fuga era uma estratégia de preparo militar.

Sua condição, porém, é tratada de forma diferente. Usa um conjunto de eufemismo ao falar de sua atitude diante do animal, para emprestar ao caso um sabor especial de coragem e valentia. Ele se assusta, mas diz que foi um reflexo de “um pulo de cabrito”. Procura não demonstrar medo, mas “Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro”. Ao ver os artifícios do lobisomem, ele sobe em uma figueira e lá no alto fica, com a intenção de não sair.

Outro recurso sintático empregado para dar expressividade ao texto é a vírgula. Bem colocada, a vírgula tem o papel de enriquecer as qualidades do lobisomem, principalmente por meio da separação do aposto. Sem falar no exemplo do uso de pontuação expressiva no texto (demarcado pelo ponto de exclamação), contido no trecho em que ele invoca os santos dos quais é devoto: “- São Jorge, Santo Onofre, São José!”.

José Candido de Carvalho usa uma linguagem corrente, agradável e de fácil assimilação. Os verbetes empregados são de origembastante popular, com algumas alterações na forma natural, provocadas pelo emprego de sufixos e prefixos, que funcionam como “uma complementação especial de sentido”. Isso reforça a condição do emprego de neologismo ao longo de todo o texto. Segundo Raquel de Queiroz, o resultado desse trabalho com a linguagem é muito bom, a tal ponto que ficamos pensando “por que é que já não se dizia aquilo assim, antes”.

fonte: http://www.mundocultural.com.br/

CNDL PRIMEIRO ANO
HISTÓRIA DO BRASIL
CAPÍTULO 1
A POLÍTICA COLONIZADORA
COLONIZAÇÃO DO BRASIL




Além da defesa do território, a colonização do Brasil teve outra finalidade: transformar a colônia num empreendimento lucrativo para Portugal.


Durante o reinado de Dom João III (1521-1557), o comércio português na Índia entrou em crise, em virtude da concorrência de outras nações européias, principalmente da Holanda e da Inglaterra. Ao mesmo tempo, as enormes despesas com a montagem e a manutenção do império português na África e na Ásia - construção de navios, pagamento de tripulações, edificação de fortalezas etc. - arruinaram as finanças do país. Nessa situação, tornava-se urgente o aproveitamento do Brasil, até então pouco lucrativo. Por outro lado, os portugueses esperavam encontrar metais preciosos, incentivados pelas notícias da descoberta de grandes jazidas de ouro e prata na América espanhola.

A expedição de Martim Afonso de Souza
Em 1530, Dom João III enviou ao Brasil a expedição de Martim Afonso de Sousa, cujos principais objetivos eram verificar a existência de metais preciosos, explorar e patrulhar o litoral e estabelecer os fundamentos da colonização do Brasil. Martim Afonso tinha poderes para nomear autoridades e distribuir terras às pessoas que quisessem permanecer aqui para desempenhar essa missão.


Martim Afonso percorreu quase todo o litoral brasileiro. De Pernambuco, enviou dois barcos para explorar o litoral norte; organizou expedições rumo ao sertão, partindo de Cabo Frio e de Cananéia; chegou até a foz do rio da Prata e depois retornou ao litoral paulista, onde fundou a vila de São Vicente (1532). Ali se organizaram alguns povoados, iniciou-se o plantio da cana e foram construídos os primeiros engenhos da colônia. Começava assim a colonização efetiva do Brasil, apoiada na produção de açúcar para o mercado externo.

Descobrimento do Brasil
Pouco depois do retorno de Vasco da Gama a Portugal, o Rei Dom Manuel, o Venturoso, mandou organizar uma esquadra com o objetivo de garantir a supremacia portuguesa na Índia. Outra finalidade da expedição era difundir a religião cristã entre os pagãos.


A esquadra, a maior até então organizada em Portugal, era composta de treze navios e tinha uma tripulação de aproximadamente 1200 homens. Para comandá-la, o rei escolheu Pedro Álvares Cabral, fidalgo de uma das mais tradicionais famílias portuguesas.

Fonte: www.brasilescola.com




Conheça as características da expedição de Martim Afonso de Souza



Martim Afonso de Souza deu início à colonização efetiva do Brasil em 1530 e fundou a vila de São Vicente, em 1532.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Conheça a história do cacique Tibiriça

Tibiriçá foi o primeiro índio a ser catequizado pelo padre José de Anchieta. Foi convertido e batizado pelos jesuítas José de Anchieta e Leonardo Nunes. Seu nome de batismo cristão foi Martim Afonso, em homenagem ao fundador de São Vicente. Sua data de nascimento é calculada em 1440. Seus restos mortais encontram-se na cripta da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo.

"Maioral" ou "Vigilância da Terra", na língua Tupi, Cacique guaianás ou tupi, sendo divergentes nesse ponto as opiniões dos historiadores. Chefe de uma parte da nação indígena estabelecida nos campos de Piratininga, com sede na aldeia de Inhampuambuçu. Irmão de Piquerobi e de Caiubi, índios que salientaram durante a colonização do Brasil, o primeiro como inimigo e o segundo como grande colaborador dos jesuítas.

Teve muitos filhos. Com a índia Potira , teve Ítalo, Ará, Pirijá, Aratá, Toruí e Bartira. A índia Bartira, viria a ser mulher de João Ramalho, de quem era grande amigo e a pedido do qual defendeu os portugueses quando chegaram a São Vicente.

Em 1554, acompanhou Manuel da Nóbrega e Anchieta na obra da fundação de São Paulo, e estabeleceu-se no local onde hoje se encontra o mosteiro de São Bento, espalhando seus índios pelas imediações. A atual rua de São Bento era por esse motivo chamada primitivamente Martim Afonso (nome que fora batizado o cacique). Graças à sua influência, os jesuítas puderam agrupar as primeiras cabanas de neófitos nas proximidades do colégio. Tibiriça deu aos jesuítas a maior prova de fidelidade, a 9 de Julho de 1562 ( e não 10 como habitualmente se escreve), quando, levantando a bandeira e uma espada de pau pintada e enfeitada de diversas cores, repeliu com bravura o ataque à vila de São Paulo, efetuado pelos índios tupi, guaianás e carijós, chefiados por seu sobrinho (filho de Piquerobi) Jagoanharo.


Em 1580, Susana Dias, sua neta, fundou uma fazenda à beira do Rio Tietê, a oeste da cidade de São Paulo, próximo à cachoeira denominada pelos indígenas de "Parnaíba": hoje, é a cidade de Santana do Parnaíba.

Referências
DE LUCA, Roberto Ribeiro, Ascendentes e Descendentes do Alferes Joaquim Franco de Camargo e Maria Lourença de Moraes Edicon, s/d. pp. 117-118;
RODRIGUES, Edith Porchat. Informações Históricas sobre São Paulo no Século de sua Fundação, Martins Editora, 1954, pp. 142-143.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Saiba mais sobre o Realismo e sobre o Naturalismo

O professor Zé Carlos Bastos, do EducaBahia, faz uma abordagem a respeito das característas principais destas duas escolas literárias.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011


Relembre frases que marcaram a história do Brasil



Muitas das frases mais notáveis da história do país foram criadas ou citadas por escritores e políticos. Jornalistas e historiadores comentam algumas das mais conhecidas.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011




Sem Lula
Por Bernardo Ricupero
cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da USP





As últimas semanas do governo Lula corresponderam à consagração definitiva do ex-líder sindical. Foi-se num crescendo, onde vale destacar o discurso de final de ano do ainda presidente: o batismo pela Petrobrás de um campo de petróleo de Lula. O clímax desse processo foi a posse de Dilma Rousseff. Não por acaso, o governo Lula atingiu 87% de aprovação, índice inédito desde que esse tipo de pesquisa começou a ser realizado.

Como é natural, os diferentes discursos proferidos por Lula e Dilma realizaram uma espécie de balanço dos últimos oito anos, além da nova presidenta indicar diretrizes para o futuro. É interessante que, ao avaliarem a “era Lula”, não destacaram apenas as realizações econômicas – como o crescimento de quase 8% esse ano – e os feitos sociais – principalmente a redução da pobreza – mas a recuperação da confiança do brasileiro.

Ou seja, um dos principais méritos do último governo não teria propriamente cor política, não sendo o resultado de uma orientação de esquerda ou de direita, mas seria, em boa medida, o resultado da capacidade de Lula liderar e inspirar seus concidadãos. Significativamente, um governo que não tinha nada de esquerdista, o de Ronald Reagan, gostava de se apresentar como aquele que tinha recuperado a autoestima dos EUA depois do fiasco da Guerra do Vietnã, também, em grande parte, devido às qualidades do ex-presidente.

Os discursos, como é comum nessas ocasiões, fornecem diversos outros exemplos de apelos não políticos. Entre eles, vale ressaltar as seguidas referências à família, bastante estranhas à tradição de esquerda. A imagem sugerida a respeito do presidente é de uma espécie de chefe de família, cioso pelo destino de seus filhos e filhas.

Mais importante, a auto-avaliação daqueles que estiveram à frente do governo nos últimos anos destacou a importância de Lula. Tal representação não deixa de contrastar com a primeira eleição do metalúrgico, em 2002, quando o triunfo foi encarado como igualmente, se não, como principalmente do PT.

Nessa referência, talvez se pudesse tomar os últimos dias do governo Lula como a culminação do que foi chamado de lulismo, fenômeno que é identificado principalmente com a progressiva desvinculação de Lula do PT. Nessa mudança, a crise do “mensalão” e a desilusão por ela provocada teriam sido decisivas.

O lulismo não se reduz, entretanto, à autonomização de Lula do PT. Há outras implicações relevantes, uma delas, como indicou quem melhor o estudou, o cientista político André Singer, o apoio ao ex-presidente e a seu partido já não vem tanto dos setores organizados, mas de um subproletaridado. A partir daí, abre-se caminho para a aproximação do lulismo com o getulismo, já que a liderança dos dois presidentes apoiou-se, em grande parte, na relação direta com as massas.

É sintomático no discurso de despedida de Lula a referência implícita à carta testamento de Getúlio. No entanto, sugere-se uma quase inversão, o governante não mais saindo “da vida para entrar na História”, mas saindo do “governo para viver a vida das ruas”. No mesmo sentido, a resolução indicada no discurso do ex-presidente, de continuar a viver “no coração do povo”, foi literalmente realizada na posse da sua sucessora, quando, numa imagem forte, o já cidadão comum desceu a rampa do Palácio do Planalto e se confundiu com a multidão.

A relação do lulismo com o getulismo é, porém, mais complexa do que se pode imaginar. Se, por um lado, há continuidade no estilo das duas lideranças, por outro lado, não menos significativas são as mudanças sociais e políticas ocorridas entre seus governos.

Na verdade, há, como tem indicado Luiz Werneck Vianna, uma certa ironia em que Lula e o PT no governo se assemelhem a Getúlio e ao PTB. Até porque o partido, que surgiu das greves do ABC do final dos anos 1970, teve como base programática inicial a crítica ao populismo, que impediria as classes de representarem diretamente seus interesses. Em compensação, a eleição de Lula, já em 2002, é indicativa de transformações profundas no Brasil, que tornaram possível a vitória de um partido com forte apoio nos movimentos sociais surgidos desde o fim da ditadura.


Mesmo durante os anos Lula, além do crescente apoio do subproletariado, o governo não deixou de contar com a sustentação, por vezes resignada, dos movimentos sociais. Não por acaso, o desfecho da “crise do mensalão” foi diferente do “Collorgate”, em que o então presidente só podia apelar aos “descamisados” .

Isto é, o governo Lula se sustentou em duas pernas: os movimentos sociais, tradicionalmente identificados com o PT, e um subproletarido, do qual o presidente se tornou interlocutor direto. É provável, portanto, que um dos aspectos mais diferentes do novo governo seja de estilo: Dilma não podendo se identificar com a maioria da população brasileira como faz Lula.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Conheça a história da canção "Tu vuò fà l'americano"


"Tu vuò fa l'americano" (Você finge ser americano) é uma canção em língua napolitana do cantor italiano Renato Carosone.

Carosone compôs a canção em 1956, juntamente com Nicola "Nisa" Salerno. Combinando swing e jazz, tornou-se uma de suas canções mais conhecidas. Encomendada por Rapetti, diretor da Casa Ricordi, para um concurso de rádio, a música foi composta por Carosone em um espaço de tempo muito curto após a leitura das letras de Nisa. Ele imediatamente percebeu que a canção se tornaria um grande sucesso. A canção foi apresentada no filme de 1960 do diretor Melville Shavelson It Started In Naples , em que foi cantada por Sofia Loren e Clark Gable. Também foi cantada por Rosario Fiorello no filme de 1999 O Talentoso Ripley e ganhou uma cover da banda The Puppini Sisters.


Um dos maiores símbolos do processo de americanização


A letra é sobre um italiano que imita o estilo de vida contemporâneo norte-americano e age como um Yankee: bebendo uísque e refrigerante, dançando ao som do rock 'n roll, jogando baseball e fumando cigarros Camel, mas que ainda depende dos pais. A canção é geralmente considerada uma sátira sobre o processo da americanização que ocorreu nos primeiros anos do pós-guerra, quando o sul da Itália ainda era uma sociedade rural tradicional.

O próprio Carosone escreveu que suas canções "foram profundamente baseadas no sonho americano, interpretando jazz e seus derivados como um símbolo de uma "América", a terra do progresso e do bem-estar, mas sempre ao estilo napolitano, fazendo desse símbolo uma paródia dissimulada de seus costumes". Segundo o jornal italiano La Repubblica "Tu vuò fa l'americano" é o símbolo da parábola artística de Carosone, já que se aposentou da música em 1960, apenas quatro anos após lançar a canção.