Embora desprestigiada pelos professores, que preferem gêneros mais “nobres”, a música caipira/sertaneja oferece ótimo material para o ensino da História
As escolhas dos professores podem ser explicadas. O gênero caipira ainda é visto como simplório e desprovido de valor no seu conteúdo, tornando-se, ao longo dos anos, alvo de críticas na verdade bem inconsistentes. Assim, no meio escolar, passou-se a aceitar como fontes de cultura musical apenas aquelas canções privilegiadas pela indústria cultural. O conjunto dos gêneros musicais preferidos dos professores pertence sem dúvida às principais correntes históricas da MPB. Mas isso não devia justificar a ausência das canções caipiras. A exemplo de outras composições, o gênero sertanejo também se insere no contexto brasileiro, abordando temas de contestação ou exaltação de conjunturas políticas, sociais e econômicas bem significativos para o estudo e a compreensão da História.
Por outro lado, muitos dos jovens que lêem os livros didáticos trazem de suas famílias um gosto musical que não exclui a música caipira/sertaneja. Esta, a exemplo de outros gêneros considerados mais “nobres”, deveria ser reconhecida como possuidora de uma estética e uma identidade cultural próprias que, embora poucos levem isso em conta, remontam ao século XVI, quando a ação dos bandeirantes marcou não só um novo ciclo de dominação e descobertas, mas também a formação de uma nova cultura – a caipira. À medida que os bandeirantes avançavam pelo interior do país, ia-se criando uma fronteira entre dois mundos distintos: o “civilizado”, representado pelos descendentes brancos, e o “atrasado”, representado pelos nativos. Para o crítico literário Antonio Candido, foi da mistura desses dois mundos que surgiu o caipira, mescla de branco e índio, somado mais tarde ao sangue do negro.
A partir das primeiras ocupações no interior, outras áreas foram surgindo, como vilas, fazendas e arraiais. As informações não chegavam a esse homem simples, cercado pela miséria que as condições de vida lhe impunham, com a mesma velocidade com que chegavam aos habitantes das metrópoles. O caipira permaneceu, assim, portador de peculiaridades marcantes nos campos da religiosidade, da literatura, da comida, da dança e da música. A música caipira estava sempre associada a rituais religiosos, ao trabalho ou ao lazer, demonstrando dessa forma o universo dos primeiros caipiras, que tinham nesse tripé o elo de sua sociabilidade com o mundo exterior.
Outro aspecto que deve ser enfatizado: o caipira, tradicionalmente, sempre foi estigmatizado com atributos negativos e visto como um homem atrasado, destituído de cultura. Seu primeiro espaço social, o sertão, também era visto pelas elites como um espaço vazio, inculto, terra de variados tipos anti-sociais em que se incluíam criminosos, degredados, e às vezes, nas crendices populares, até lugar da morada do demônio. A cultura caipira foi, portanto, ao longo dos séculos, considerada uma cultura rústica e sem valor social.
Na década de 1920, coincidindo com os ecos da Semana de Arte Moderna, começaram a surgir estudos visando ao resgate dessa cultura, já então merecedora da denominação “popular”. Apareciam as primeiras canções caipiras gravadas em disco, como a célebre “Tristeza do Jeca”, composta por Angelino de Oliveira em 1918 e gravada em 1923. Mas será com o conjunto “Cornélio Pires e sua turma” que esse gênero musical entrará na indústria cultural.
Cornélio passou a se apresentar pelo interior paulista fazendo shows, tendo gravado seu primeiro disco em 1929. Como o gênero ainda era desconhecido, tirou para isso dinheiro do próprio bolso, apostando no sucesso que estava por vir. Essa cultura “rústica” passa aos poucos, então, a ser levada ao público das grandes cidades através dos programas de rádio, influenciando compositores urbanos, como Noel Rosa (“Festa no céu”, “Minha viola”, “Mardade cabocla”) Ary Barroso (“Rancho Fundo”) e Lamartine Babo (“Serra da Boa Esperança”).
Devido ao grande movimento migratório, acentuado no país na década de 1950, muitos homens do campo passam a integrar os segmentos da classe operária, mas sem esquecer o passado, como relata a narrativa desta composição (“Sodade do tempo veio”), assinada por Sorocabinha: “É só eu pegá na viola, me vem a recordação:/ o tempo do meu sitinho,/ que tudo era bom, ai.../ que tudo era bom/ (...) Hoje eu me vejo em São Paulo,/ nessa rica povoação,/ trabaiando de operário/ sendo que já fui patrão, ai.../ sendo que já fui patrão.” Temática semelhante usarão Dino Franco e Nhô Chico em “Caboclo na cidade”: “Seu moço eu já fui roceiro/no triângulo mineiro/ onde eu tinha meu ranchinho (...)/ então aconteceu isso/ resolvi vender o sítio/ e vim morar na cidade/ Nem sei como se deu isso/ Seu moço naquele dia/ eu vendi minha família/ e a minha felicidade.”
Nos dois casos, verifica-se um reajuste da cultura rural frente à urbana no qual a primeira passa obrigatoriamente a aceitar as condições impostas pela segunda. Mas o caipira jamais esqueceria sua origem – e um dos instrumentos utilizados para tal fim foi a música. Este repertório, se analisado com o respeito que merece, situando-o dentro do contexto histórico brasileiro, vai apresentar um caráter narrativo das dificuldades do homem rural na cidade grande e, ao mesmo tempo, a negação dos valores urbanos frente aos do sertão.
Se levadas para as salas de aula, as músicas caipiras – com o professor explorando as representações nelas contidas – poderiam se transformar em material didático de ótima qualidade sobre a realidade vivida pelo migrante em seu novo espaço de vida, a cidade. E não apenas isso. Entre os temas cantados nas modas e músicas caipiras/sertanejas, há também críticas a governantes e apreciações sobre os problemas do cotidiano, como é o caso da “Moda do bonde camarão”, antes denominada “Bonde camarão”, de Mariano da Silva e Cornélio Pires, em que um caipira, ao chegar à cidade de São Paulo, descreve a estranheza que lhe causam os bondes modernos: “Aqui em São Paulo/ o que mais me amola/ é esses bonde/ que nem gaiola./ Cheguei, abriro a portinhola,/ levei um tranco/ e quebrei a viola./ Inda puis dinheiro na caxa de esmola”.
Esta composição revela, num primeiro momento, a recusa do caipira em entender os processos do capitalismo na sua forma mais original, o da exploração, o que se revela no uso da máquina para se locomover e na “caxa” de esmola, que, na verdade, simboliza o lucro da empresa. Outros temas recorrentes são inflação e mudança de governo, como nos indica a letra de “A coisa ficou bonita”, de Tião Carrero e Lourival dos Santos: “Sofria sem esperança/ a população aflita/ A inflação furava o povo/ com sua espada esquisita/ Caiu do céu um governo/ trazendo força infinita/ O preço foi congelado/ quase ninguém acredita (...)/ A coisa que tava feia/ agora ficou bonita./ Presidente e seus ministros/ capricharam na escrita/ Pacotão veio bonito/ vejam só a cor da fita.
”A letra é uma referência ao primeiro governo pós-ditadura militar, para o qual foi eleito Tancredo Neves, que não chegou a assumir. Seu vice, José Sarney (1985-1990), recebeu um país com graves problemas sociais. A “esperança”, portanto, estava no combate à inflação que veio com o Plano Cruzado, cujas medidas de maior destaque estão presentes na letra: congelamento dos preços das mercadorias e reajuste automático dos salários, com o virtual aumento do poder de compra.
Boa parte da História do Brasil, como se vê, aparece nessas composições. O historiador Ubiratan Rocha chama a atenção para a preparação do professor. Segundo ele, arrolar diferentes falas históricas, sem a preocupação com uma teoria que possa ordená-las e dados que possam suplementá-las, pode resultar num relativismo inconseqüente. Para não se tratar simplesmente de memória em vez de História, é preciso que se desenvolva um esforço teórico, contextualizando os vários testemunhos. Diferentes pontos de vista são importantes não para que se possa tomar partido de um ou de outro, mas para se compreender melhor a realidade sob diferentes óticas.
A intenção deve ser sempre a de se superar uma visão simplista, buscando aliar o estudo de documentos históricos às letras de canções que traduzam parte da memória social. Além disso, poderá contribuir para a derrocada de preconceitos que ainda cercam o sertanejo, o caipira e sua produção poética/musical. A música caipira, sem dúvida alguma, no que expressa as angústias do homem do campo frente à realidade urbana, faz parte da nossa memória, embora este acervo valioso tenha sido injustamente menosprezado na sala de aula e subestimado no meio acadêmico.
A liberdade guiando o povo (1830)


A rigor não se pode dizer que tenha ocorrido uma integração dos sistemas de repressão no Cone Sul, embora a tentativa de criação de um sistema integrado tenha existido, mas somente de maneira parcial e só bem depois do Golpe de Estado no Brasil, ocorrido em 1964. A primeira reunião internacional para sua criação ocorreu no Chile, em 1976, e dela participaram representantes do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Embora os norte-americanos não tenham oficialmente participado, acompanharam de perto as decisões tomadas na reunião e sabiam exatamente o que estava acontecendo. Muito tem sido dito no Brasil sobre a Condor e a imprensa brasileira chegou a publicar várias matérias sobre o assunto, de certa maneira vinculado o nosso país como integrante importante da Operação. Contudo, aqui defendo a tese de que essa Operação não interessava efetivamente ao governo brasileiro, à época dirigido pelo presidente Ernesto Geisel. O Brasil preferiu não se envolver tão diretamente e não se comprometer tanto com o esquema vislumbrado pelos chilenos. E por quê o regime militar brasileiro não se interessou tanto pela Condor? Ora, em 1976, os focos de resistência ao regime no Brasil já haviam sido virtualmente eliminados, restando muito pouca capacidade para a atuação dos grupos de esquerda remanescentes no país. Já no contexto regional, o fim das democracias no Uruguai, no Chile e, finalmente na Argentina, fechou o cerco ao amplo movimento de exilados entre as fronteiras desses países. Vale lembrar que o Paraguai e a Bolívia já viviam sob regimes militares. A essa altura, os brasileiros que haviam originalmente buscado refúgio na área do Cone Sul se viram impedidos de continuar na região, sobretudo pela ferocidade dos regimes chileno e argentino, que foram implacáveis com qualquer tipo de pensamento de esquerda. Era necessário e urgente buscar refúgio em outras partes, seja na Europa, América do Norte ou África, muito longe, portanto, das fronteiras nacionais e do alcance das garras do Condor. O que causa espanto é a idéia dos europeus e, nesse caso específico, dos italianos, de se acharem no direito de julgar crimes cometidos num contexto histórico e regional totalmente alheio a eles. Os países europeus foram os países mais criminosos do mundo ao longo dos séculos XIX e XX e muito pouco foi feito em termos de justiça para julgar, condenar e punir os seus crimes, como se verá. A Operação Condor continua em evidência nos principais jornais do país e provavelmente continuará por um bom tempo, à medida que mais fatos forem surgindo. É importante frisar que a participação do Brasil nessa Operação foi limitada e que não interessava tanto ao regime militar brasileiro cooperar nesse tipo de assunto com outros regimes do Cone Sul. Pelo menos não de uma forma institucional. E também é bom lembrar que havia interesses muito divergentes e rivalidades entre esses regimes. Pelo simples fato de serem regimes militares não podemos colocar todos num mesmo patamar. Mas há um aspecto que deve ser questionado e que afinal foi o que colocou a Operação Condor em evidência novamente. Refiro-me diretamente ao fato dos europeus se acharem no direito de exercer a “justiça” em qualquer parte do mundo, como se fossem os guardiões, os paladinos da moralidade planetária. Ora, qualquer estudante ou observador da História mundial há de verificar que a maior parte do sofrimento humano ocorrido pelo menos nos dois últimos séculos provém exatamente da “civilizada” Europa, isso para não voltarmos mais no tempo. Vamos citar apenas alguns poucos exemplos: a escravidão negra foi instituição tipicamente européia (os europeus foram os responsáveis diretos pela invenção da escravidão baseada na cor da pele, uma novidade em termos históricos). Mas a escravidão foi pouco. Junto ocorreu praticamente o extermínio e a desenfreada exploração dos povos originários das Américas e depois veio o sistema colonial com toda a sua brutalidade e bestialidade, tanto no continente asiático quanto no africano. Para irmos um pouco mais além, o século XX assistiu a dois conflitos globais originários de idéias e práticas políticas genuinamente européias. E, para quem não sabe, a Europa pariu o fascismo e sua variante nazista, infelizmente ainda hoje presentes em muitos países do mundo, sobretudo na própria moderna e civilizada Europa. Mas vamos avançar ainda mais, com mais exemplos. A Espanha, sob o governo do generalíssimo Franco, protagonizou um brutal regime de exceção que não ousou um minuto sequer em pactuar com a Alemanha nazista. Portugal, com a ditadura de Salazar, fez o inimaginável com a oposição interna e, principalmente, com as “pessoas” (é bom lembrar que até bem pouco tempo atrás os europeus não consideravam os negros exatamente como pessoas) que lutavam contra o ultracolonialismo na África. A Inglaterra, por sua vez, na década de 1970 (portanto, concomitante com os regimes militares latino-americanos) usou seus pára-quedistas para executar manifestantes irlandeses contrários à dominação britânica da Irlanda do Norte (episódio conhecido como “Domingo Sangrento”). E o que dizer do racismo explícito dos povos europeus contra negros, latinos e asiáticos? Acaso não constituem crimes contra a humanidade, de acordo com determinação das Nações Unidas? E ninguém fala disso. Mais um exemplo apenas: o regime “democrático” da “civilizada” e “ilustrada” França ajudou no genocídio em Ruanda (ocorrido outro dia, em 1994) e pelo que consta nenhum sábio juiz europeu abriu qualquer processo contra os bravos militares ou ilustres políticos franceses! Pois esses são os senhores do mundo que se acham no direito de pedir a extradição de latino-americanos! O que se passou aqui deve ser acertado aqui. Os crimes cometidos durante as ditaduras latino-americanas são responsabilidade nossa, e não dos europeus. Não somos idiotas e nem aceitamos ser tratados como incapazes. Os europeus deveriam cuidar da sua casa e da sua História, afinal há um verdadeiro acumulado histórico de violência e desrespeito aos mais elementares direitos humanos que nunca foi devidamente esclarecido.



