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sábado, 24 de outubro de 2009

A pornochanchada toma viagra
Por Ricardo Calil

Se o cinema brasileiro dos anos 70 fosse transformado em filme de ficção, a pornochanchada faria o papel do amante cafajeste, o público seria a boazuda insaciável e o cinema oficial da Embrafilme representaria o marido traído. No clímax desse filme imaginário, o marido chegaria em casa no momento em que a mulher se entrega ao amante e este corre para se esconder no armário. Desconfiado, o corno trancaria o armário e jogaria a chave fora.
A pornochanchada ficou escondida durante anos no armário da história oficial do cinema brasileiro, mas agora dá sinais de uma volta em grande estilo. O gênero inspirou documentários sobre suas atrizes e produtores, virou tema de mostras em museus e cinematecas, de teses de doutorado e até de um disco – além de manter uma sessão de sucesso no Canal Brasil.
“A pornochanchada foi uma carnificina celulóidica”, define Carlo Mossy, galã e produtor de boa parte dos filmes do ciclo que dominou as telas dos cinemas brasileiros nos anos de chumbo da ditadura militar. “Foi uma grande sacanagem”, endossa o jornalista Xico Sá, conhecedor do gênero.
Dar papel de destaque à pornochanchada na história do cinema brasileiro é uma questão de justiça. Durante os anos 70 e começo dos 80 foram produzidos mais de 600 filmes do gênero. Alguns deles figuram entre as maiores bilheterias do cinema nacional. “Os mansos” teve 2,8 milhões de espectadores, “A viúva virgem” atraiu 2,5 milhões de pessoas e “Como era boa a nossa empregada” arrebatou outras 2,04 milhões.
cartazes de filmes do gênero, feitos com dezenhos de Ziraldo.

A lista de sucessos é grande: “Toda donzela tem um pai que é uma fera”, “Os paqueras”, “Ainda agarro essa vizinha”, “O bem dotado, o homem de Itu”, “Mulher objeto”, “Histórias que nossas babás não contavam” e “Os bons tempos voltaram – Vamos gozar outra vez.”
Adele Fátima em Histórias que as nossas babas não contavam

Apesar da qualidade técnica e artística sofrível, do humor rasteiro e da visão conservadora da sexualidade encontrados na maioria das pornochanchadas, havia também alguns filmes de bom nível – incluindo até exemplares com discussões políticas e existenciais pertinentes, feitas por diretores como Carlos Reichenbach e Jean Garrett.
A definição de “pornochanchada”, termo pejorativo adotado pela crítica, não é simples. A princípio, ele se refere a comédias eróticas de baixo orçamento, que beberam na fonte do cinema italiano e da chanchada brasileira. Mas há quem defenda a tese de que filmes como “Dona Flor e seus dois maridos” e “A dama do lotação”, os dois maiores sucessos da história do cinema brasileiro, não passam de pornochanchadas com verniz literário. Ou ainda que os dramas eróticos de cineastas como Walter Hugo Khoury e Arnaldo Jabor também integram o gênero.
A maioria das pornochanchadas foi produzida na chamada Boca do Lixo, no centro de São Paulo, ou no Beco da Fome, na Cinelândia do Rio de Janeiro. Os filmes de cada cidade eram bem diferentes: grosso modo, a pornochanchada carioca era mais light e cômica; a paulista, mais pesada e cabeça.

Fábrica de símbolos sexuais
Ricardo Calil Nathaniel prepara um documentário sobre as “musas”: discriminaçãoO ciclo da pornochanchada foi um raro exemplo de sucesso no cinema brasileiro que não dependeu da ajuda do Estado. Como disse a atriz Aldine Muller, numa frase já clássica: “Os intelectuais esgotaram o Cinema Novo, mas logo o pornô fez o cinema se levantar.”
A pornochanchada deu emprego a pessoas que mais tarde se destacariam como cineastas ou autores de novela (Guilherme de Almeida Prado, Antonio Calmon, Sílvio de Abreu), bons atores (Antônio Fagundes, Ney Latorraca, Nuno Leal Maia) e centenas de técnicos.
E, claro, foi uma verdadeira fábrica de símbolos sexuais nos anos 70. Passaram pela pornochanchada atrizes como Vera Fischer, Adriana Prieto, Helena Ramos, Aldine Müller, Sandra Barsotti, Rossana Ghessa, Nicole Puzzi, Kate Lyra e Adele Fátima.

Vera Fisher.
As musas do gênero serão tema de um documentário dirigido por Nathaniel Leclery e roteirizado por Guilherme Coelho, parceiros do premiado “Fala tu”. Eles pretendem mostrar as histórias pessoais de algumas dessas mulheres, da infância ao presente. Entre elas há hoje donas de casa, evangélicas, vendedoras, produtoras teatrais. Uma minoria continua trabalhando como atriz. Helena Ramos.

A dupla pensou primeiro em fazer um documentário mais amplo sobre a pornochanchada. Um comentário de Eduardo Coutinho fez com que decidissem limitar o foco. “A pornochanchada não existiria sem as mulheres”, disse o diretor de “Cabra marcado para morrer” e “Edifício Master”.
Leclery e Coelho já estão sentindo alguns dos preconceitos que costumam rondar a pornochanchada. Ao procurar patrocínio, perceberam que algumas empresas não gostariam de se associar a um filme sobre o gênero. Por conta disso, decidiram tirar a palavra “pornochanchada” do nome do documentário e adotar o título provisório de “Os fabulosos anos do cinema brasileiro”. Ainda não levantaram patrocínio, mas acreditam que conseguirão filmar até o final do ano.
Leclery afirma que as atrizes da pornochanchada são o alvo preferencial da discriminação. “Há trinta anos elas são vistas como devassas. Essas atrizes ajudaram a cristalizar a imagem do que é a brasileira e sofreram muito com isso. Todas foram receptivas à idéia do documentário, mas apareceram armadas para o primeiro encontro.”
Uma das grandes musas do ciclo, Sandra Barsotti, confirma o cuidado. “As atrizes da pornochanchada eram vistas como profissionais do sexo, como verdadeiras piranhas. As pessoas mexiam com meu ex-marido, com meu irmão”, conta Sandra, que foi uma das poucas atrizes do gênero que ainda conseguiu realizar uma carreira bem-sucedida na televisão e no teatro.
Entrar no universo da pornochanchada foi para Sandra uma forma de romper certas barreiras pessoais. “Eu era a menina certinha do Leblon, a primeira da turma. As pessoas pensam que rolava a maior sacanagem no set, mas era tudo muito profissional”, diz. “A pornochanchada carioca era ingênua como uma fotonovela. Os filmes eram assanhados, mas não de baixo nível.”

A redescoberta do gênero

Além do documentário sobre as atrizes, em fase de captação, o gênero aparece como destaque em outro filme já finalizado: “O Galante rei da Boca”, de Luís Alberto Rocha Melo e Alessandro Gama. Exibido com sucesso em festivais de cinema no ano passado, o documentário mostra a trajetória do produtor Antonio Polo Galante, considerado o rei da Boca do Lixo. Ele produziu desde títulos como “Presídio de mulheres violentadas” até clássicos dos diretores Walter Hugo Khoury, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach.
Luís Alberto Rocha Melo explica que o documentário não é especificamente sobre a pornochanchada, mas sobre os mecanismos de produção de um cinema popular. Ele detalha o modelo praticado por Galante: “Os exibidores adiantavam metade do orçamento. Com esse dinheiro, ele rodava o filme. Com a bilheteria, fazia outro filme e pagava as dívidas depois.”
Ele ensina que o título da pornochanchada era fundamental para atrair o público. “Galante fazia filmes a toque de caixa com títulos como ‘A filha de Emanuelle’ ou a ‘A filha de Calígula’, para aproveitar a publicidade em torno de produções estrangeiras que eram proibidas pela censura”, conta Luís Alberto Rocha Melo. “Naquela época havia um público flutuante que entrava no cinema de rua por causa do cartaz. Isso não existe mais.”
Alessandro Gama acha que esse não foi o único elemento que deixou de existir no cinema brasileiro. “Hoje se fala muito em cinema independente, em filme de baixo orçamento, em diversidade de produção. Mas quem realmente praticava isso era o Galante e ao outros produtores da Boca do Lixo, que faziam um cinema independente do Estado.”
“O cinema popular brasileiro está sendo redescoberto por uma nova geração. Existe uma história contada e outra não contada no cinema brasileiro. A pornochanchada está nessa segunda categoria. É preciso lembrar que o cinema nacional não é só Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Ele é feito também por produtores como o Galante e diretores como Osvaldo de Oliveira”, afirma Luís Alberto Rocha Melo. “A discussão não pode ser estética, nem ideológica. Não dá para dizer que os filmes populares eram melhores que os do Cinema Novo. A discussão tem que ser histórica e política. É preciso afirmar uma história que foi negada.”
O processo de afirmação dessa história negada começa a dar seus primeiros passos. A pornochanchada aos poucos vai abrindo a porta do armário para ocupar espaços nobres do cinema e da academia. Em junho passado, Galante foi tema de uma retrospectiva no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, com curadoria de Eugênio Pupo. Em dezembro, a Cinemateca Brasileira, também na capital paulista, foi palco da mostra “Cinema Brasileiro, a vergonha de uma nação”. Organizada por Remier Lion, ela reuniu diversos filmes populares, incluindo algumas pornochanchadas.
Não ficou nisso. A pornochanchada também se tornou tema de teses de mestrado e doutorado. “Boca do Lixo – Cinema e classes populares”, de Nuno César Abreu, da Unicamp, e “O Brasil é feito de pornôs: o ciclo da pornochanchada no país dos governos militares”, de Flávia Seligman, da USP, despejaram um olhar acadêmico sobre o gênero.
Vítima da abertura política
Para Hernani Heffner, conservador e pesquisador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), essas mostras e teses são sintomas claros da aceitação da pornochanchada por um público culto. “Há várias razões para a sobrevida do gênero. Em primeiro lugar, existe a questão do erotismo, que hoje pode ser considerado quase casto”, afirma. “A pornochanchada não é só peito e bunda. Há também um olhar sobre o espírito daquele tempo. O gênero reflete um quadro mais amplo de liberação dos costumes. Boa parte dos filmes mostra o choque entre a visão mais conservadora dos adultos e a visão mais libertária dos jovens.”
Hernani Heffner também aponta os motivos que levaram à decadência da pornochanchada a partir do final dos anos 70. “Com a abertura política, prevaleceu a idéia de que o cinema precisava endireitar o país. Era necessário fazer filmes mais sérios, mais engajados socialmente. Além disso, houve a ascensão do vídeo de sexo explícito e a explosão dos blockbusters americanos, como ‘Guerra nas Estrelas’.”
A sensualidade ingênua da pornochanchada, de acordo com o pesquisador, foi importante para a iniciação sexual de muitos jovens brasileiros. Essa tese é confirmada pelo caso do músico Alexandre Caparroz, conhecido como Che. “’A Sala Especial’, clássica sessão de pornochanchadas da TV Record nos anos 80, foi importante para minha educação sexual. Foi a época da tendinite plena”, diz Che, numa referência explícita aos efeitos colaterais provocados por hábitos onanistas. “Ver a Helena Ramos tirar a roupa era algo impactante.”
A memória afetiva daquele tempo foi tão marcante que Che (ex-Professor Antena) decidiu fazer um disco em homenagem à pornochanchada: “Sexy 70 – Music Inspired by the Brazilian Sacanagem Movies of the 1970’s”. Primeiro, ele pensou em compilar temas das trilhas do gênero, feitas por músicos como Erlon Chaves, Túlio Mourão, Paulo Moura e John Neschling, hoje maestro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Mas, depois de ver mais de sessenta produções durante a pesquisa, decidiu compor novas músicas inspiradas pelos velhos filmes.
O resultado, acredita, fica próximo ao easy listening ou ao muzak, baseado em instrumentos como vibrafone, xilofone e piano elétrico e influenciado por trilhas de italianos como Henry Mancini e Ennio Morricone, mas com um molho latino. Depois de esgotar a primeira tiragem de três mil CDs, Che já programa shows para São Paulo a partir de março em que pretende exibir em telões ao lado do palco trechos dos filmes que o inspiraram.
Chanchadeiros viscerais
Não dá para falar em revival da pornochanchada sem citar o Canal Brasil. A sessão “Como era Gostoso o Nosso Cinema” é tão importante para o público televisivo de hoje quanto a “Sala Especial” foi para a geração 80. Há três anos essa faixa de horário dedicado aos filmes eróticos nacionais se mantém entre as maiores audiências do canal de tevê paga.
O diretor Paulo Mendonça afirma que “Como Era Gostoso o Nosso Cinema” foi importante até mesmo para a sobrevivência do Canal Brasil. “Em 2003, quando pensamos em fechar, essa faixa foi fundamental para mostrar que o canal tinha potencial de público.” A pedido dos assinantes, este ano o horário de exibição dos filmes passou da 1h da madrugada para a meia-noite. Vinte novas pornochanchadas, vindas dos acervos de David Cardoso, Cláudio Cunha e Antonio Polo Galante entraram na programação.
“O sucesso das pornochanchadas hoje, em meio à enorme oferta de sexo em outros canais, nas locadoras e na Internet, tem uma explicação simples: a coisa intuída é mais saborosa. Há um desgaste das situações mais explícitas”, diz Paulo Mendonça. Ele conta que a maior parte do público de “Como era Gostoso o Nosso Cinema” tem mais de 45 anos e pertence às faixas A e B.
O Canal Brasil foi responsável pela ressurreição de algumas carreiras, entre elas a do galã Carlo Mossy. Ao lado de David Cardoso, ele foi um dos principais atores-diretores-produtores de pornochanchadas dos anos 70. Depois que voltou a aparecer, agora na televisão, Mossy já foi convidado para papéis importantes no filme “O homem do ano”, de José Henrique Fonseca, e na série “Carandiru”, que Hector Babenco roda para a Globo. Mossy está dirigindo um programa sobre Carlos Imperial, a quem define como “o primeiro homem multimídia do Brasil”, e que também foi astro de pornochanchadas, para a série “Retratos Brasileiros”, do Canal Brasil.
Mossy aproveita o embalo e não pára por aí. Quer dirigir este ano o longa “Relações perversas”, baseado no conto “Uns braços”, de Machado de Assis. “Eu costumo dizer que escrevi esse roteiro a quatro mãos com Machado. Por isso, quero fazer uma leitura na Academia Brasileira de Letras.”
Não é exagero. Mossy também está captando dinheiro para realizar a série “Contos Eróticos na Madrugada” para o Canal Brasil. Serão treze episódios de “neopornochanchadas” com sexo explícito, dirigidos e apresentados por ele no estilo de Jack Palance em “Acredite se Quiser”. O ex-galã tem certeza de que será um sucesso. “Aqui no Brasil tudo é chanchada: o governo, a televisão, a política cinematográfica”, diz. “O brasileiro é um chanchadeiro visceral.”
PORNOCHANCHADA
Por Marcel de Almeida Freitas
Introdução
A memória nacional que, nos âmbitos político, econômico ou social, é tão precariamente conservada, nos ramos artístico e cultural pode encontrar no cinema alguma possibilidade de recuperação. A pesquisa histórica em geral enfrenta o problema da falta de documentação, mas não só este: também os juízos de valores dos estudiosos, intelectuais e dos profissionais da mídia contribuem para que alguns 'acontecimentos' artístico-culturais permaneçam por 'baixo do tapete'. Entretanto, a neutralidade deve ser procurada ao máximo (mesmo sabendo que a neutralidade absoluta em qualquer campo de conhecimento é impossível), o que poderia propiciar que a História se voltasse para a criação artística em geral não somente como o entretenimento que fundamentalmente é, mas como mecanismo de resgate do passado, trazendo à luz elementos auxiliares à compreensão da vida brasileira. Desta forma, através da preservação da produção artística brasileira temos mais meios de, compreendendo as épocas anteriores, entender todo o processo que culminou nas produções artísticas e culturais do presente. A imagem, nesta busca, tem a possibilidade de se tornar documento de determinado período histórico e objeto de estudo deste período e, assim sendo, o cinema pode ser usado para que possamos contextualizar determinada etapa da história nacional, esclarecendo a respeito dos modos de pensar, amar, sofrer, trabalhar, vestir, enfim dos modos de vida daquela época. Desta maneira, o processo dinâmico de conhecimento através da imagem (como também do som) pode servir como mais um, entre tantos, materiais da pesquisa sócio-historiográfica. Logo, o argumento deste artigo é que não somente as produções cinematográficas didáticas e prestigiadas podem contribuir para se pensar e localizar o passado do Brasil, mas também aquelas produções estigmatizadas pela elite intelectual e midiática. Isto porque, independentemente do 'nível' da produção ou da qualidade geral, os filmes feitos em série, com baixo orçamento e com atores/atrizes quase amadores e que receberam o rótulo de 'pornochanchadas' podem ser tão esclarecedores quanto as obras "Anchieta José do Brasil", "Gaijin" ou "Anos JK". Não se discute aqui a qualidade ou a moralidade desta ou daquela produção: se eram mal-acabados, alienados/alienantes, infames ou escatológicos. Isso cabe a profissionais da área de Comunicação e/ou Belas-Artes avaliar (o que é diferente de julgar). Este texto é uma visão sócio-histórica daquelas produções que dominaram as salas de cinema nacional especialmente na década de 1970 e na primeira metade da década de 1980. Até mesmo o machismo, o racismo e outros 'ismos' de que são acusadas tais fitas (geralmente com razão) são indícios históricos para se refletir a mentalidade coletiva da época. O cinema da Boca-do-Lixo é geralmente tratado com ironia nas raras menções da cinematografia brasileira, apesar de sua importância no mercado dos anos 1970 e início da década de 80. Daí, o cuidado do professor e cineasta Nuno ABREU (2000) em se despir de preconceitos e lançar 'um olhar benevolente' sobre aquela comunidade peculiar de diretores, produtores, atores e técnicos que agitou a zona do baixo meretrício em São Paulo. Sua pesquisa tem como matéria-prima entrevistas com quinze personagens da época (incluindo uma atriz, Matilde Mastrangi). Por conseguinte, a partir deste e de outros trabalhos, será exposto neste texto alguns aportes sócio-psíquico-culturais deste fenômeno tão complexo denominado Pornochanchada, herdeira, em certo sentido, das chanchadas da Atlântida. A chanchada foi um estilo bem comum no cinema brasileiro, tendo sido a mescla de vários estilos de comédia com um toque de picardia, ingênua para os padrões de hoje. Desde a Grécia Clássica, onde Aristóteles já a abordara em sua "Poética", a comédia tem adquirido variados sub-gêneros. Daqueles primórdios imemoriais, em que se contrapunha à tragédia (a primeira se dedicava aos homens piores que a média e esta última aos homens melhores que a média), grandes personagens da vida artística a ela se dedicaram. Aristófanes e Menandro na Grécia, Plauto e Terêncio em Roma, centenas de autores renascentistas da "Comedia dell'Arte" italiana, Lopez de Vega na Espanha, Gil Vicente em Portugal, até sua maturidade nas mãos de Shakespeare, Moliére entre outros. Todos estes filões da comédia foram para o cinema, no qual a forma mais conhecida e divulgada de comédia é o 'pastelão' nonsense.
Pornochanchada
Tendo como temas recorrentes a malandragem, o adultério, o travestismo, a homossexualidade (entendida como o papel passivo), o tráfico de drogas, a bissexualidade feminina e se valendo de uma linguagem que, do besteirol, passando pela brejeirice (1a fase) ia até a picardia (2a fase), nascia, no final da década de 1960, o cinema pré-erótico nacional, que se convencionou denominar 'Pornochanchada', herdeira direta das chanchadas dos anos 1950 e da repressão instituída pelo AI-5 (em 1968). Simultaneamente existia o cinema intelectualista/de protesto/'arte', gerado pelo Cinema Novo, produzindo filmes como "O Amuleto de Ogum" (de Nélson Pereira dos Santos - 1974), "Xica da Silva" (de Carlos Diégues - 1976) e "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (de Bruno Barreto - 1976). Rotulada como despolitizadora, o meio acadêmico em geral sustenta que este gênero foi incentivado pelo governo, tendo recebido subvenção da Embrafilme, porque desviava a atenção da sociedade dos desmandos e das perseguições políticas mostrados pelos grandes diretores do 'autêntico' cinema brasileiro. Por outro lado, a Pornochanchada também refletiu o estouro sexual que a década de 1970 presenciou, sofrendo o impacto, entre outras coisas, da pílula anticoncepcional e do movimento feminista. Grande parte dos espectadores era constituída por homens, das mais diferentes idades, raças e origens. No que concerne à classe, predominavam as classes D e C, mas não eram raros médicos, advogados ou, no outro extremo, até mendigos, irem às salas das regiões centrais das grandes capitais brasileiras (em Belo Horizonte eram exibidos nos cines Los Angeles, Marabá e Regina, entre outros). O efeito psicológico da Pornochanchada era atingir diretamente as fantasias e despertar os mecanismos projetivos dos espectadores. As mulheres extremamente maquiadas e 'liberadas' mexiam diretamente com o sonho erótico do homem médio brasileiro. Havia também um segundo processo psíquico, ou seja, levava a uma identificação direta daquele indivíduo submisso, pobre e sem perspectivas com os galãs - grande parte canastrões e carregados no gestual - valentes, audazes e sexualmente predadores. No que respeita à comédia, na Pornochanchada o homem médio ria de situações com as quais já vivera ou presenciara diretamente: um marido traído, um conquistador piegas, uma mulher atirada, um rapaz que fica impotente no momento da relação, uma aventura homossexual esporádica. Quanto a este último item, é importante um adendo: diferentemente dos filmes pornográficos de hoje em dia, onde muito raramente há alguma cena homossexual em sinopses basicamente heterossexuais, nos filmes da Pornochanchada e mesmo nos filmes eróticos da década de 80, a presença de relações sexuais entre homens e entre homens e travestis (geralmente passivos) era tão constante quanto a bissexualidade feminina, que permaneceu nos filmes heterossexuais da atualidade. Em síntese, a pornochanchada, além de mais realista em se tratando da fauna sexual do mundo concreto, não era hipócrita negando o trânsito dos homens pela sexualidade com outros homens, como se isso fosse uma coisa muito rara e específica. Portanto, conforme David Cardoso em entrevista para a revista "Playboy", "(...) o homossexual é uma figura imprescindível em toda pornochanchada". O chamado Cinema Novo se contrapunha diretamente à Pornochanchada. Aquele foi um movimento de renovação do cinema brasileiro, surgido logo após a falência da Vera Cruz, revitalizando a filmografia nacional nos seus aspectos econômicos, estéticos e políticos. As produções precursoras, "Rio 40 Graus" (de Nélson Pereira dos Santos - 1955) e "Rio Zona Norte" (idem - 1957) surgiram como crítica à atribuída falta de compromisso social da chanchada, que era até então o gênero dominante. Entretanto, somente se tornou movimento cultural organizado a partir dos primeiros filmes de Glauber Rocha: "Barravento" (1964) e "Deus e O Diabo na Terra do Sol" (1965). Este último também lançou as bases teóricas destas tendências no seu livro "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro" (1963). Em sua fase mais produtiva (até 1969) o Cinema Novo revelou importantes diretores que fizeram obras consagradas pela crítica: Ruy Guerra ("Os Fuzis", 1964), Carlos Diégues ("A Grande Cidade", 1966), entre outros. Foi um estilo cinematográfico que se caracterizou por produzir filmes realistas, geralmente de produção modesta, com alta produção estética sem cair no exagero que caracterizara a chanchada. Isso fez com que várias produções vencessem diversos prêmios internacionais. As temáticas, quer fossem na zona rural ou urbana, buscavam abordar de maneira questionadora os problemas sociais da chamada 'realidade brasileira'. No final dos anos 60, desencadeada pela perseguição da ditadura militar, o Cinema Novo entrou em crise. Outro fato que o fez cair em relativa decadência foi a extrema industrialização da produção artística, almejando conquistar mais público (SELIGMAN, 2000).
Há algumas controvérsias para definir o grupo de cineastas que freqüentava a Boca-do-Lixo no final da década de 1960 e começo da década de 1970. Alguns os definem como cineastas marginais, no sentido literal da palavra 'margem', isto é, cineastas que atuavam na periferia do sistema (Embrafilme/Cinema Novo etc.) e tinham como temáticas principais o submundo urbano, os excluídos, os renegados pela sociedade. Não possuíam muitos recursos para filmar, logo, haviam que improvisar, tentando sanar as deficiências técnicas com criatividade. Segundo o cineasta João Callegaro, "o cinema da Boca-do-Lixo é um cinema cafajeste" (SUGIMOTO, 2002:3), que aproveitou 50 anos de cinema americano e não se perdeu nas elucubrações intelectualizantes do Cinema Novo. Os filmes da Boca-do-Lixo podiam ser feitos com negativos riscados, fotografia suja, erros de continuidade, trafegavam na precariedade. Havia certa atração pelo abjeto, pela avacalhação. A primeira vez que foi citado o termo 'Cinema da Boca' foi na revista Manchete, que definia este movimento como sendo 'cafona tropicalismo brasileiro' (SUGIMOTO, 2002). Certa feita, Carlos Reichenbach disse: "na impossibilidade de fazer o melhor, devemos fazer o pior" (SUGIMOTO, 2002:4). Estava querendo mostrar que não havia recursos para grandes produções, e quando fala do pior não se refere a obras ocas, mas a filmes transgressores que rompessem a divisão clássica entre obras de bom gosto e de mau gosto. Carlos Reichenbach nasceu em 1945 em Porto Alegre. Ao se mudar para São Paulo estudou na Escola Superior de Cinema São Luiz, onde grande parte dos outros diretores da Boca foi professor e/ou aluno (outro motivo porque eram marginalizados: grande parte não havia passado pelas cátedras da USP). Foi um dos principais diretos da 'Boca-do-Lixo'. Também era o fotógrafo de seus próprios filmes. A pecha, um tanto equivocada, de ser um 'cinema alienado', parece provir de uma intelligentsia alarmada com sua origem social: vindo de uma família pobre e tendo trabalhado anos como caminhoneiro, nada mais longe do arquétipo do intelectual de classe média do que o diretor Ozualdo Candeias, por exemplo, assim como o ex-produtor rural David Cardoso. A origem social, menos que empecilho (a pobreza, pensariam alguns, como sinônimo de ignorância), parece ser fonte de parte de sua originalidade. Candeias é um caso único no cinema brasileiro não apenas porque se ocupa em tentar registrar a margem da margem da sociedade: tantos outros diretores tentaram o mesmo, quase sempre de maneira paternalista. Há em suas imagens algo de muito particular, uma qualidade diferencial que de certa maneira só poderia emanar de um artista formado pela vida. Nesse sentido, faz um cinema empírico (e não primitivo), fundado antes sobre a experiência (e na experimentação) do que em conceitos. Em suas fitas os movimentos, as ações e personagens não apenas parecem - eles são. Em sendo assim, as pornochanchadas invadiram o mercado de modo ubíquo e se caracterizaram por serem produzidas em série, no mais literal sentido da palavra industrial. Eram levemente eróticas, sem sexo explícito, derivadas das chanchadas (porcaria em espanhol paraguaio) e indiretamente do Teatro de Revista. Apesar de terem baixíssimo custo, eram altamente lucrativas. De acordo com seus defensores, contribuíram para 'deselitizar' o cinema brasileiro, levando as classes C, D e E às salas de projeção. Pelos críticos de arte é considerada decadente e de qualidade inferior à velha chanchada musical. Apenas as tramas "Adultério à Brasileira" (1969), "Ainda Agarro Essa Vizinha" (1974) e "A Viúva Virgem" (1972) foram elogiadas pela crítica especializada daquele período. SANTOS (2003) informa que desde o dia 4 de Setembro de 1987 a Boca-do-Lixo ficou sem um de seus maiores ideólogos. Aos 59 anos, Ody Fraga morreu lá mesmo, na Boca, mais exatamente na rua do Triunfo, com os pulmões enfraquecidos pelo cigarro. Autor de mais de 50 roteiros - inclusive algumas novelas de TV, como "O Preço de Um Homem", "Bel Ami" e "Vendaval" - diretor de mais de 20 filmes, entre eles "Vidas Nuas" de 1968, que realmente deslanchou a Pornochanchada ou "Fome de Sexo", um pornô explícito. Foi grande apologista do hedonismo: "a pornografia é o sexo sem vergonha de si mesmo" disse à revista "Status" em 1982; foi um homem de excessos. Homem tão pornográfico quanto letrado, é provável que ele incomodasse um pouco mais do que devia. Dizia sempre que a USP fazia a teoria de cinema, mas que cinema mesmo, sua prática, acontecia na 'Boca'. Em relação a este diretor, ABREU (2000) confessa que: "Conheci Ody Fraga no início da década de 80. Nessa época os alunos do curso de cinema da USP querendo a prática quase inexistente na escola, procuravam aproximar-se do local onde, efetivamente, se fazia cinema: a Boca. Depois de algumas incursões com esses alunos, a rua do Triunfo perdeu o mistério. Nesse período, o cinema que lá se fazia era a 'pornochanchada', que até deu tese universitária. Na época, esse produto estava distante das concepções estéticas Uspianas, aquelas que engendravam obras-primas definitivas. Nos tempos da censura perversa, a pornochanchada, esse gênero de cinema 'mostra não-mostra', avançando centímetro a centímetro em direção do gozo vicário, era parte significativa da industria cinematográfica brasileira. Na Boca fazia-se cinema e, por isso, os alunos estavam lá. Mas como chegaram, se foram. Dessa passagem, restaram-me algumas amizades. Ody, por exemplo.
Outro importante diretor da 'boca' foi Tony Vieira (1938-1990). Ex-trapezista de circo, ex-baleiro, ex-locutor de rádio. O mineiro Mauri de Queiroz (seu nome verdadeiro) trabalhou vários anos como funcionário de uma TV de Belo Horizonte e cursou teatro universitário. Mudou-se para São Paulo onde teve sua chance como ator em um seriado onde vivia um motorista de táxi e participou de pontas em novelas. No cinema começou em filmes de seu amigo Edward Freund. Foi assistente de Mazzaropi e descobriu sua vocação para papéis de durão em aventuras rurais como "Panca De Valente" (1968), "Corisco, O Diabo Loiro" (1969) e "Uma Pistola Para Djeca" (1969). Foi também galã de Pornochanchadas, mas seus papéis de cowboy-caipira o marcaram mais. Passou a produzir, dirigir e atuar em faroestes e policiais 'vagabundos' com alto apelo erótico, violência e cenas de ação. Durante quase dez anos disputou com David Cardoso a coroa de 'o machão da Boca-do-Lixo'. Porém seus filmes eram bem mais divertidos. Criou um tipo de herói solitário e implacável, aproveitando seus dotes artísticos circenses e sua cara de malvado. Fazia par romântico com Claudete Joubert e passou a produzir para outros diretores como Wilson Rodrigues ("Liberdade Sexual", 1979; "A Dama do Sexo", 1979; "As Taras de Uma Mulher Casada", 1981, por exemplo). Ele realizou também algumas co-produções no Paraguai, tais como "O Último Cão de Guerra" (1979), em que vivia um mercenário contratado por um magnata para resgatar sua filha numa espécie de campo de concentração de traficantes paraguaios. Muitos tiros, explosões, lutas fakes e garotas nuas. Na metade dos anos 1980 Tony Vieira precisou, por questões financeiras, dedicar-se aos pornôs, que assinava com seu nome verdadeiro, Mauri de Queiroz. Em 1987 tentou retomar seus filmes de ação com "Calibre 12", que fracassou principalmente devido à má distribuição. Faleceu sem dinheiro e praticamente esquecido por seu público.
Assista abaixo a uma cena do filme "A fêmea do mar (1984) com Aldine Muller, uma importante musa da pornochanchada na década de 80.

fonte: http://www.pcrc.utopia.com.br/PORNOCHANCHADA&bl=y