quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

CONCURSO HISTORIADOR

CONCURSO HISTORIADOR UFRJ
CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
21 - “Assim, a partir da segunda metade do século XVI, um problema que não podia ser resolvido pelos meios da ordem tradicional tornava-se cada vez mais virulento: a época impunha a necessidade de encontrar uma solução em meio a igrejas intolerantes, que travavam duros combates e se perseguiam cruelmente, e em meio a frações estamentais ligadas pela religião. Uma solução que contornasse, apaziguasse ou abafasse a luta. Como era possível restabelecer a paz?”
(Reinhart Koselleck. Crítica e Crise. Rio de Janeiro: Eduerj, 1999. p. 21)
Assinale a alternativa que corresponde a uma correta interpretação do trecho acima:
(A) a passagem refere-se aos problemas decorrentes das Guerras Religiosas travadas contra o infiel muçulmano que ocupara territórios ao sul do continente europeu;
(B) as guerras religiosas em que se viram envolvidas as sociedades européias decorreram dos problemas suscitados pelas determinações do Concílio de Trento, que estabelecia um rigoroso retorno à ortodoxia sob a autoridade papal;
(C) a solução encontrada para o enfrentamento dos problemas decorrentes das guerras religiosas deu-se no âmbito da política com a formulação de um Estado de tipo absolutista;
(D) as guerras religiosas só puderam encontrar um desfecho após a afirmação de um Estado laico concebido como acima dos interesses particulares, cuja existência deveu-se à Revolução Francesa;
(E) as guerras religiosas tiveram pouca repercussão para as formulações políticas, uma vez que circunscreveram-se ao âmbito privado da fé religiosa.


22 - “Em Itália, é simultaneamente o mundo culto e o povo que prestam homenagem à Antiguidade e querem fazê-la reviver porque recorda a todos a grandeza passada do seu país. A facilidade que têm os Italianos de compreender a língua latina, a massa de recordações e monumentos, que ainda subsistem, contribuem poderosamente para este desenvolvimento intelectual.... Mas o Renascimento não é uma imitação parcial e uma compilação, é uma regeneração.”
(Jacob Burckhardt. A civilização do Renascimento italiano. Lisboa: Editorial Presença, 1983. p.139-40)

Assinale a alternativa que corresponda a uma correta avaliação do Renascimento pelo autor:
(A) o Renascimento, como se desenvolveu nas cidades da Itália, empreendeu uma resignificação dos valores culturais da Antiguidade, lidos sob as novas exigências e demandas das experiências do século XIV e XV;
(B) a cultura do Renascimento significou uma imitação dos valores considerados superiores na Antiguidade, o que estimulou o estudo das línguas clássicas e a tradução dos autores canônicos;
(C) o Renascimento como expressão da cultura moderna significou uma ruptura radical com os valores da Antiguidade, considerados superados em nome de um progresso percebido como a marca dessas sociedades;
(D) o ideal de imitação que presidiu o interesse da cultura do Renascimento pela Antiguidade foi responsável por um interesse particular com relação à preservação de traços ainda visíveis dessa Antiguidade;
(E) a Antiguidade clássica forneceu os elementos indispensáveis ao homem do Renascimento para organizar sua ação em sociedade, especialmente através dos modelos políticos a serem copiados a partir do modelo das cidades-Estado antigas.


23 - Com relação ao movimento da Contra-Reforma ocorrido na Europa no século XVI, é INCORRETO afirmar que:
(A) tratava-se de um reação da Igreja católica ao movimento da Reforma protestante e caracterizou-se por um reforço dos princípios hierárquicos da Igreja como instituição temporal;
(B) significou uma reação ao poder temporal da Igreja e ao papel de instituição mediadora entre os homens e o Criador, desempenhado pela hierarquia religiosa;
(C) a cultura do Barroco, como expressão peculiar do homem moderno, está articulada ao movimento da Contra-Reforma em seus aspectos culturais;
(D) o Concílio de Trento definiu os princípios de uma política contra-reformista baseada em uma revalorização dos dogmas da Igreja Católica;
(E) o Barroco como expressão de uma cultura contra-reformada caracteriza-se por uma tensão permanente entre fé e razão, própria do homem da modernidade.

24 - NÃO corresponde aos projetos políticos dos revolucionários de 1930 no Brasil:
(A) “A Revolução veio para depor essa anarquia legalizada no poder, permitindo o surto da verdadeira República. A Revolução mais do que a República de que fala Montesquieu, é a forma de governo da virtude.”
(Discurso proferido por Oswaldo Aranha ao transmitir o cargo de Ministro da Justiça a Maurício Cardoso em 21/12/1931.)
(B) “I- Fortalecer por todos os meios a unidade da Pátria e em tudo superpor os interesses nacionais aos regionais. II- Rever a divisão territorial do país, de modo a tornar indiscutíveis os limites interestaduais e atender, a um tempo, às exigências do desenvolvimento econômico dos Estados e ao equilíbrio político da federação. III- Manter a República Presidencial, o regime federativo e o sistema representativo com a divisão dos poderes em executivo, legislativo e judiciário, independentes e harmônicos.” (Teses debatidas no Congresso Revolucionário realizado em novembro de 1932. Arquivo Oswaldo Aranha. CPDOC/FGV)
(C) “A Ação Social Brasileira, para a unidade do Brasil, quer: A substituição do regime federativo, cuja força dissociadora dividiu o Brasil em 21 pátrias diferentes, por um todo homogêneo que, tendo por base o município, não entrave, com ora acontece, mas, ao contrário, restabeleça e garanta a unidade nacional, dentro do sistema cooperativo.” (Folheto com Programa da Ação Social Brasileira. In: CARONE, Edgard. A Segunda República. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973. p. 295)
(D) “O tenentismo armava contra o faccionismo das oligarquias regionais as mais formidáveis forças de que poderia dispor. O presidente de Estado se tornaria figura quase sem relevo político, reduzido a uma função puramente administrativa. E os juízes federais, livres da pressão dos governos locais, estremes da influência perniciosa do caudilhismo, passariam a ser considerados como fatores de equilíbrio e moderação na vida rural.” (O Clube 3 de Outubro contra posse de Maurício Cardoso no Ministério da Justiça. In: CARONE, Edgard. O Tenentismo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1975.)
(E) “Reconhecemos que o governo ditatorial, apesar dos seus esforços e sincero desejo de acertar, não logrou ainda resolver satisfatoriamente nenhum desses problemas. Pudemos mesmo dizer que só agora, após o transcurso de um ano de ditadura, começam a delinear-se, com alguma firmeza, as soluções adequadas às nossas precaríssimas realidades. Aos que acham fraca a obra da ditadura cumpre que a inspirem e incitem com as suas sugestões e esforços para que mais rapidamente realize a sua tarefa, ao invés de perturbá-la com o estribilho estéril do consitucionalismo.” (Documento de autoria provável de Juarez Távora. Arquivo Augusto do Amaral Peixoto. CPDOC/FGV)
25 -

Luiz XIV, tomado como o modelo por excelência do monarca de Antigo Regime, serviu como referência para inúmeras representações imagéticas, que, segundo o historiador inglês Peter Burke, foram de fundamental importância para a “fabricação do rei” e de seu poder político.
A respeito de uma dessas inúmeras representações, é correto afirmar que:
(A) a referência ao Deus Apolo inscreve-se na concepção política da origem divina do poder real, justificativa central para o exercício do poder por parte dos monarcos absolutos como Luiz XIV;
(B) a representação imagética de Luiz XIV recupera a centralidade da Antiguidade como referência central para a justificativa do poder régio, associando-o a uma linhagem que remontaria aos reis da Antiguidade;
(C) a referência à mitologia clássica era um dos temas centrais da pintura histórica romântica voltada para uma valorização dos temas históricos como afirmação do poder nacional;
(D) a representação proposta de Luiz XIV em associação a um deus da mitologia, expressa o interesse por construir uma imagem do poder real assentada em bases realistas de um poder absoluto associado à figura do monarca de Antigo regime;
(E) a representação em questão deve ser compreendida como uma alegoria, cuja prática estava submetida a convenções e preceitos, conhecidos por aqueles (autores e receptores) que partilhavam seus códigos interpretativos.

26 - “No momento em que o conjunto de interesses que se haviam constituído como decorrência da fusão dos antigos monopolizadores começava a colocar ao lado da questão do Estado a da Nação, também como resultado da brusca aceleração de um movimento, anuncia-se uma mudança de perspectiva e a constituição de um campo diverso: deixavam de olhar apenas para a Corte, espaço de seus interesses imediatos, e, por fazê-lo ampliavam o espectro das forças contra as quais combatiam. (...) A classe senhorial se distinguiria nesta trajetória por apresentar o processo no qual se forjava por meio do processo de construção do Estado imperial.”

(MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema. Rio de Janeiro: São Paulo, 1987. p. 56-7)
Sobre o tema, é correto afirmar que:
(A) a constituição da classe senhorial no processo de definição do Estado Imperial no Brasil estava marcada pelos interesses da agricultura escravista do sudeste, que vêm no projeto de um estado monárquico condições para assegurar seu domínio enquanto classe social;
(B) os interesses escravistas da cafeicultura fluminense articulamse aos demais interesses de grupos escravistas no Nordeste no sentido de assegurar um projeto de dominação saquarema, cujo centro de irradiação do poder estaria na Corte no Rio de Janeiro;
(C) a classe senhorial constituiu-se a partir do enraizamento dos interesses metropolitanos na região sudeste, favorecendo a cafeicultura de base escravista e assegurando a autonomia das demais regiões da antiga colonia portuguesa;
(D) não sendo constituída apenas de plantadores escravistas, a classe senhorial buscava construir sua identidade a partir de sua localização na América com olhos, contudo, voltados para a Europa; (E) sendo constituída pelo conjunto de interesses escravistas na América portuguesa, a classe senhorial via no Estado Monárquico Imperial as condições necessárias para a continuidade de sua dominação, prolongando-a da período colonial para o período da independência.

27 - “ Formação [Educação], Cultura e Ilustração são modificações da vida espiritual; resultantes da dedicação e dos esforços dos Homens no sentido de melhorarem suas condições para a vida.”
(Moses Mendelssohn. 1784)
“Esclarecimento é a saída do homem de seu estado de menoridade. Menoridade é a incapacidade de servir-se de sua própria razão sem depender de outrem.” (Immanuel Kant. 1784)
A respeito dessas citações, é correto afirmar que:
(A) são posições filosóficas típicas do Iluminismo, em sua versão alemã, cujos fundamentos serão a base para a formulação das identidades nacionais;
(B) expressam o ponto de vista de uma cultura protestante e reformada cujos princípios forneceram as bases para uma política nacionalista dos príncipes alemães;
(C) indicam a concepção racionalista herdeira do movimento contra-reformista na Europa;
(D) apresentam o projeto iluminista como um projeto de esclarecimento, cujos fundamentos racionais deveriam proporcionar uma autonomia de pensamento para os homens;
(E) formulam as teses clássicas iluministas que irão sedimentar os projetos políticos de unificação dos territórios alemães.

28 - “Portugal permaneceu, longamente, nostálgico e fixado em si mesmo, preso ao seu sonho de império. Desde há alguns anos, porém, Portugal conhece uma mutação – da sua cultura emerge, em muitas áreas, uma nova irradiação – e uma força expressiva. Só o futuro dirá se esta nova presença entre os “outros”, em particular europeus, mudou o imaginário dos portugueses.”
(Eduardo Lourenço. Catálogo da Exposição. Novos mundos. Portugal na Era dos Descobrimentos. P. 51.)
A respeito da frase do pensador português Eduardo Lourenço, é correta a seguinte afirmação:
(A) o imaginário dos portugueses foi fortemente constituído a partir da expansão martítima e do papel que Portugal representou neste processo, construindo a imagem pioneira de Portugal alargando as fronteiras da Europa e permitindo o conhecimento do mundo;
(B) Portugal assiste a um ressurgir de seu sonho nostálgico de cabeça de um grande império, agora nos quadros de uma Europa unificada;
(C) o sentimento de nostalgia de um grande império que dera a Portugal a primazia entre as nações do mundo está sendo substituído por um esquecimento do passado em prol de uma inserção na modernidade representada pelo projeto de uma comunidade européia;
(D) o papel pioneiro desempenhado por Portugal na conquista do mundo permitiu-lhe uma abertura para os outros, traço característico de um imaginário imperial;
(E) o imaginário dos portugueses fortemente talhado pela lembrança da expansão marítima e pelo sonho de um império explica em parte o “atraso” português em relação aos países europeus.

29 - A imagem reproduzida abaixo é uma das usadas mais frequentemente para evocar a libertação da cidade de Berlim, no dia 30 de abril de 1945, pondo fim à segunda guerra mundial. A respeito do evento e de seus desdobramentos históricos, é INCORRETO afirmar que:


(A) a libertação de Berlim pelo exército soviético assegurava o direito das forças de ocupação sobre a conjunto da cidade, antiga capital do III Reich;
(B) a capitulação do dia 7 de maio de 1945 foi condição para que as forças aliadas vitoriosas assumissem no dia 5 de junho de 1945 o controle do governo da Alemanha;
(C) no mesmo ano de 1945, começaram os processos de expropriação de empresas e de reforma agrária na área de ocupação soviética;
(D) imediatamente após a capitulação, tem início o processo político de constituição da República Democrática Alemã nos territórios ocupados pelo exército soviético;
(E) a conferência de Potsdam, realizada entre os meses de julho e outubro de 1945, deixou claras as diferenças que separavam a Aliança ocidental e a União Soviética no tocante às reparações alemães, num quadro de evidentes disputas de espaços de poder sobre os territórios ocupados da Alemanha.

30 - 1968, “o ano que não terminou” nas palavras do jornalista Zuenir Ventura, representou importante divisor de águas, cujos desdobramentos ainda se fariam presentes em nossas sociedades contemporâneas. A respeito do seu significado, assinale a alternativa INCORRETA :
(A) os desdobramentos políticos da guerra do Vietnã, naquele ano, significaram uma mudança da opinião pública norteamericana que dividiu-se quanto ao apoio à solução militar preconizada pelo governo dos Estados Unidos;
(B) os eventos históricos que marcaram o panorama da história mundial naquele ano de 1968, do Ocidente ao Oriente, pouco deveram às ações militares na guerra do Vietnã, a não ser evidentemente no caso dos Estados Unidos, país mais diretamente envolvido no conflito;
(C) a guerra do Vietnã representou uma importante referência para os projetos políticos na América Latina através do modelo “de novos Vietnãs” contra o imperialismo norteamericano;
(D) o movimento feminista norte-americano desempenhou importante papel denunciando a guerra do Vietnã como um projeto de uma sociedade “fálica e imperialista”;
(E) a guerra do Vietnã representou importante papel de articulação da contracultura, movimento que convocava os jovens a “fazer o amor e não a guerra”.

31 - “No seu Dictionnaire des idées reçues, Flaubert não esqueceu de incluir o verbete ‘exposição’, para o qual dá uma definição lacônica, quase amável: ‘motivo de delírio do século XIX’. O autor de Bouvard et Pécuchet faz-nos assim imaginar o entusiasmo das massas pelo fenômeno das exibições públicas de arte, do saber técnico e científico, das criações industriais que este século burguês deu à luz com uma fé quase ilimitada no progresso e na criatividade humana”.
(GUERREIRO, António. Exposições Universais. Paris 1900. Lisboa: Edições Expo’98, 1995. p. 7)
As Exposições Universais são consideradas os primeiros grandes eventos de massa da sociedade moderna ocidental. Assim como Gustave Flaubert, muitos escritores e artistas da época buscaram explicações para os fenômenos da modernidade pensando e qualificando aqueles eventos. Sobre a modernidade oitocentista, é correto afirmar que:
(A) a modernidade, ao longo do século XIX, assumiu um caráter progressista e pacificador, eliminando as desigualdades e as disputas entre as nações por meio do avanço industrial e da massificação cultural;
(B) a modernidade do século XIX pode ser caracterizada, apesar de sua multiplicidade de questões, como um momento de ascensão da nobreza na cena política, a qual chegou, inclusive, a fundar um estilo arquitetônico específico – o neogótico – para representar sua cultura, herdeira da nobiliarquia medieval;
(C) diante das incertezas provocadas pelo advento e consolidação da sociedade de massa industrial, o principal recurso intelectual de pensadores europeus para avaliar o presente foi o estabelecimento de uma base teórica fundamentada na História enquanto disciplina científica;
(D) no campo das artes, a modernidade oitocentista estabeleceu novos padrões estéticos, fundados a partir da crise do cânone clássico, que representaram um acentuado rompimento, já na primeira metade do século XIX, da arte ocidental com os valores da Antigüidade Greco-Romana;
(E) como contraponto às cidades industriais, que cresciam vertiginosamente de forma ordenada, e alçadas à condição de símbolos da modernidade por intelectuais como o crítico de arte inglês John Ruskin (1819-1900), o campo foi considerado o lugar do atraso e da estagnação, e por isso entrave ao progresso almejado.

32 - “Quando alguém mencionava, no Brasil dos séculos XVIII e XIX, um africano, o mais provável é que estivesse a falar de um escravo, pois nessa condição amargava a maioria dos homens e mulheres que, vindos da África, aqui viviam. Mas podia também referir-se a um liberto, ou seja, a um ex-escravo. Ou a um emancipado, isto é, um negro retirado de um navio surpreendido no tráfico clandestino. Ou, o que era mais raro, a um homem livre que jamais sofrera o cativeiro. Escravos, libertos, emancipados ou livres, poucos estranhariam as paisagens brasileiras, porque muitas vezes semelhantes às que tinham deixado na África e que se haviam tornado ainda mais parecidas, graças à circulação entre o Índico e o Atlântico de numerosas espécies vegetais, como a mandioca, o milho, o inhame, o quiabo, o coco, a manga, o ananás, o tamarindo, o tabaco, a maconha, o caju e a jaca. Por isso, vir da África para o Brasil era como atravessar um largo rio.”
(SILVA, Alberto da Costa e. Um Rio chamado Atlântico. A África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: UFRJ Editora / Nova Fronteira, 2003. P. 157)
O autor do texto acima, o embaixador e historiador Alberto da Costa e Silva, é um dos principais estudiosos, em nosso país, da história e das culturas do continente africano. Assinale a alternativa que apresenta uma interpretação correta sobre o trecho acima destacado:
(A) o autor apresenta as possibilidades de “ser africano” na América Portuguesa. Entre elas, a condição de liberto era a mais comum, tendo em vista que a riqueza gerada pela mineração, ao longo do século XVIII, proporcionou aos africanos escravizados maiores chances de adquirirem a alforria;
(B) os emancipados eram os africanos que, escravizados na África, eram libertados durante a travessia do oceano Atlântico por militares ingleses da Royal Navy – a Marinha Real Inglesa – que, respaldados pelo Slave Trade Suppression ou Aberdeen Act, apreendiam os negreiros, navios que transportavam cativos do continente africano para o Brasil;
(C) a afirmação de Alberto da Costa e Silva, “vir da África para o Brasil era como atravessar um largo rio”, pode ser compreendida como uma metáfora sobre as intensas relações culturais entre o Brasil e a costa atlântica africana, vínculos estes que se dissiparam com o fim do tráfico negreiro intercontinental, determinado pela Lei Eusébio de Queirós, aprovada pelo Parlamento brasileiro em 1850;
(D) de acordo com o autor, era possível um africano livre em terras brasileiras, sem jamais ter sofrido o cativeiro. Contudo, esta era uma condição rara, que ocorria somente em áreas coloniais portuguesas onde existiam plantations, extensas áreas de monocultura cuja finalidade era a produção de gêneros tropicais para a exportação;
(E) segundo Costa e Silva, as intensas trocas culturais entre Brasil e África, forjadas no bojo do tráfico negreiro e do comércio colonial português, alteraram as respectivas paisagens daquelas duas regiões: hábitos, tradições, alimentos e vegetais influenciaram um e outro lugar, tornandoos semelhantes. No caso específico dos alimentos e vegetais, essa troca possibilitou a criação de um tipo de agricultura familiar, em pequenas propriedades, que produziam víveres para o mercado interno da América Portuguesa.

33 - “A produção artística desse período [fundação do Império do Brasil] é caracterizada, sobretudo, pela absorção do romantismo e apresenta alguns traços distintivos. Em primeiro lugar, o interesse e a proteção pessoais do imperador D. Pedro II – monarca que construiu a imagem pública de político liberal e intelectual amante das ciências e das artes. Em segundo lugar, as artes em geral (...) vão fazer parte nesse momento de esforço político de construção do imaginário da nova nação, buscando os temas nacionais dentro de um modelo de uma história celebrativa dos fatos e dos homens relevantes à sua soberania – como a Guerra do Paraguai, por exemplo – e dos elementos constitutivos de sua formação étnica peculiar - em especial o indianismo.”
(PEREIRA, Sonia Gomes. A arte brasileira no século XIX. BH, C/ Arte, 2008. p. 34)
Assinale a imagem que NÃO corresponde à citação apresentada acima:
(A)


Vitor Meireles. A Primeira Missa no Brasil. Óleo s/ tela, 1860, 268 x 356 cm (MNBA – RJ)

(B)


Francisco Chaves Pinheiro. Alegoria ao Império Brasileiro. 1872, 192 X 75 X 31 cm. (MNBA – RJ)

(C)


Ex-voto, Batalhados Guararapes. Óleo s/ tela, 1758, 122 X 217 cm (Museu Histórico Nacional – RJ)

(D)
Pedro Américo.D. Pedro II na Abertura da Assembléia Geral. 1872, óleo s/ tela, 288 X 205 cm. (Museu Imperial – Petrópolis RJ)

(E)
Vitor Meireles. Moema. Óleo s/ tela, 1866, 129 X 190 cm (Masp – SP)

34 - A respeito da Revolução Industrial Inglesa e de seus desdobramentos para a constituição das sociedades modernas, é correto afirmar que:
(A) o forte desenvolvimento industrial, através do emprego da tecnologia nos setores manufatureiros tradicionais alargou a capacidade produtiva transformando a Inglaterra no principal exportador de produtos industrializados;
(B) o modelo de desenvolvimento industrial inglês tornou-se o padrão para o processo de industrialização das sociedades européias no século XIX, que buscaram aprender com o exemplo da Inglaterra;
(C) as novas formas de desenvolvimento propiciadas pela automação do trabalho eliminaram por completo os interesses agrários desse processo, gerando uma tensão permanente entre campo e cidade;
(D) desde o início do processo de automação da produção de bens, assistiram-se a motins e rebeliões urbanas fortemente orientadas por uma ideologia unificadora desses movimentos a partir de pensadores do socialismo utópico;
(E) o desenvolvimento das ferrovias na Inglaterra sintetizaria, de forma emblemática, o conjunto de transformações por que
passava a sociedade inglesa, uma vez que representava a incorporação do aperfeiçoamento técnico combinada à integração dos diferentes processos produtivos.

35 - “Nem o imperialismo, nem o colonialismo são puros atos de acumulação e aquisição.” (Edwar W. Said. Culture and Imperialism)
A correta exposição da tese do autor a respeito do colonialismo do século XIX é indicada na seguinte alternativa:
(A) as práticas políticas derivadas da política imperial dos
estados europeus oitocentistas não consideravam os
aspectos econômicos dessa dominação, mas simplesmente
sua dimensão simbólica para as potências da Europa
ocidental;
(B) o imperialismo constituiu-se numa exploração das matérias
primas para o processo de industrialização europeu e em
reserva de mercado consumidor para essa produção;
(C) o interesse europeu pelos continentes africano e asiático no
século XIX inscrevia-se num conjunto amplo de articulações
em que aspectos econômicos, culturais e políticos definiam
a política imperialista;
(D) a cultura européia manteve-se, não obstante a forte presença dos europeus em territórios da África e da Ásia, intocada do ponto de vista cultural, uma vez que os valores da civilização eram considerados superiores àqueles das culturas extraeuropéias;
(E) a política de exploração econômica dos territórios africano e asiático, visando a acumulação de capital em sua fase monopolista, só foi viabilizada em função de um poder político extremamente violento que significava a supressão de autonomia desses territórios.

36 - “O império português constitui o exemplo mais característico de um império marcado, ao mesmo tempo, pela descontinuidade espacial, pela economia de meios e por coexistências de modelos institucionais. (...) Um império, sem dúvida, que não tinha muito a ver, na sua forma de se estruturar politicamente, com os impérios da tradição clássica européia, nem com aquele desenvolvido pelos Espanhóis, bastante mais próximo das formas tradicionais de dominar e de organizar politicamente o espaço, já que estava vocacionado para o controle directo de grandes extensões continentais. O império português, em contrapartida, estendese por um vasto mundo, que não podia dominar nem controlar se empregasse os expedientes tradicionais da administração.”
(HESPANHA, Antonio Manuel & SANTOS, Maria Catarina. Os poderes num império oceânico. In: HESPANHA, Antonio Manuel. Coordenador. História de Portugal. O Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.)

Essa particularidade apontada pelo autor teve repercussões para a administração das áreas coloniais como os territórios portugueses na América. A respeito desse tema, é correto afirmar que:
(A) essa descontinuidade espacial indicada pelo autor obrigava os administradores do império a pôr em prática modelos variados de instituições de acordo com os territórios a serem ocupados e suas particularidades;
(B) a dinâmica do Antigo Sistema Colonial impunha um modelo único de administração dos territórios de ultramar, o que gerava certa uniformidade das práticas administrativas;
(C) os princípios da administração colonial portuguesa caracterizaram-se por uma relativa capacidade de adaptação de modelos já experimentados, mas jamais a improvisação que não assegurava a certeza dos resultados a serem obtidos;
(D) as capitanias-donatárias foram a forma encontrada pela Coroa para a colonização de territórios sob sua direta jurisdição e controle com dispêndio de meios para aquelas regiões consideradas estratégicas;
(E) a par o sistema das capitanias, o sistema de feitorias foi estabelecido pela administração portuguesa naquelas áreas onde era preciso implantar novas e lucrativas rotas comerciais.
37 - “Brasileiros! Daqui, do centro da pátria, levo o meu
pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai
a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para
eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução
fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.”
(Discurso do presidente Juscelino Kubitschek pronunciado na sessão solene de instalação do poder Executivo, no Palácio do Planalto, 21 de abril de 1960)
A propósito do texto acima, é INCORRETO afirmar que:
(A) o discurso apresenta Brasília como a meta-síntese do projeto apresentado no Plano de Metas, cujo objetivo principal seria a transformação radical do país em cinco anos de governo;
(B) o discurso presidencial formula uma promessa de desenvolvimento econômico para as gerações futuras, sendo a inauguração da nova capital federal o começo desse esforço desenvolvimentista;
(C) a inauguração da capital federal, no planalto central, realizava um projeto antigo de transferência da sede do poder político republicano e constituía-se em síntese do Brasil moderno;
(D) Brasília representava a interiorização dos valores da civilização moderna, capazes de assegurar a superação do subdesenolvimento secular do país;
(E) a inauguração de Brasília representava os valores que moldaram a política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, apoiada na idéia de que o novo seria a condição para a superação de um passado atrasado.

38 -
I – “Havia um setor da população urbana, formado por pequenos proprietários, profissionais liberais, jornalistas, professores e estudantes, para quem o regime imperial aparecia como limitador das oportunidades de trabalho. (...) Eram mais atraídas pelos apelos abstratos em favor da liberdade, da igualdade, da participação, embora nem sempre fosse claro de que maneira tais apelos poderiam ser operacionalizados.”
II – “Para esses homens a república ideal era sem dúvida a do modelo americano. Convinha-lhes a definição individualista do pacto social. Ela evitava o apelo à ampla participação popular, tanto na implantação, como no governo da república. Mas ainda assim, ao definir o público como a soma dos interesses individuais, ela lhes fornecia a justificativa para a defesa de seus interesses particulares.”
III – “Um grupo social que se sentiu particularmente atraído por essa visão de sociedade e de república foi o dos militares. (...) Por outro lado, por serem parte do próprio Estado, não podiam dele prescindir como instrumento de ação política.”

Os fragmentos de texto acima, extraídos da obra “A Formação das Almas”, do historiador José Murilo de Carvalho, tratam dos debates acerca dos projetos de república em discussão a partir de 1889, no momento de implantação do novo regime. De acordo com o autor, foram propostas três vertentes possíveis como modelos para a nascente república brasileira: o modelo jacobino, o modelo positivista e o modelo liberal. Assinale a alternativa correta: (A) as citações I e III correspondem ao modelo liberal e a citação II corresponde ao modelo positivista;
(B) as citações II e III correspondem ao modelo positivista, e a citação I corresponde ao modelo liberal;
(C) a citação I corresponde ao modelo liberal, a citação II corresponde ao modelo jacobino e a citação III corresponde ao modelo positivista;
(D) a citação I corresponde ao modelo positivista, a citação II corresponde ao modelo liberal e a citação III corresponde ao modelo jacobino;
(E) a citação I corresponde ao modelo jacobino, a citação II ao modelo liberal e a citação III corresponde ao modelo positivista;

39 - O Entre-Guerras na Europa foi marcado por uma grande efervesência cultural. A partir dos principais centros urbanos do continente, entre eles a capital da Alemanha, Berlim, vários movimentos artísticos de vanguarda foram disseminados pelo mundo. Assinale a alternativa que NÃO corresponde a esse período:
(A) a experiência política de Weimar foi fundamental para a cena cultural alemã no período do Entre-Guerras, alçando Berlim à condição de metrópole cosmopolita e centro irradiador das vanguardas artísticas;
(B) a Bauhaus foi uma escola de arte e design localizada na Alemanha que alcançou destaque por seu corpo docente, composto por artistas que se projetaram no meio artístico mundial, mas, principalmente, por sua produção de vanguarda, que envolvia desde objetos do cotidiano, como móveis e eletrodomésticos, até expressões tradicionais do campo artístico, como pinturas e esculturas;
(C) entre as inúmeras manifestações artísticas do Entre-Guerras, o Expressionismo ganhou força com sua referência crítica à herança do passado e um compromisso de enfrentar os desafios da modernidade;
(D) o movimento Arte Nova, também conhecido por Art Nouveau ou Jungendstil, foi a principal vertente teórica de vanguarda da arquitetura do Entre-Guerras, e se manifestou, principalmente, em Espanha, tendo como expoente o arquiteto catalão Antoni Gaudí, autor das célebres obras Casa Milà e Igreja da Sagrada Família;
(E) o ano de 1933 marca o fim da República de Weimar e a ascensão do Nacional-Socialismo, que representou um revés para diferentes grupos da política alemã, como os democratas e os comunistas. Significou também um rechaço, no campo das artes, aos movimentos de vanguarda, considerados uma “degeneração”. O fechamento da Bauhaus, ocorrido naquele ano, expressou essa ruptura.

40 - A cidade do Rio de Janeiro serviu, desde a instalação da corte portuguesa, em 1808, de palco para experiênciais políticas e culturais, que foram apresentadas como modelares para o estabelecimento de um “projeto civilizatório” nacional. Duas dessas experiências mais significativas, materializadas por meio de grandes intervenções urbanísticas, foram a reforma urbana do início da República, entre 1903 e 1906, empreendida pelo governo do Presidente Rodrigues Alves, e o desmonte do Morro do Castelo, núcleo urbano original da cidade, que deu lugar, no início da década de 1920, à esplanada que sediou a Exposição Universal, comemorativa do centenário da independência. Sobre estas duas intervenções urbanas, assinale a alternativa INCORRETA:
(A) tanto uma intervenção como a outra tiveram como um dos objetivos principais o reordenamento do espaço urbano, visando requalificá-lo e adequá-lo ao modelo de cidade moderna, de caráter burguês-industrial;
(B) a reforma urbana empreendida dos anos de 1903-1906 teve como principais agentes os engenheiros. Dois dos mais importantes personagens envolvidos nas obras, Paulo de Frontin e Francisco Pereira Passos – o primeiro, chefe dos trabalhos de abertura da Avenida Central e o segundo prefeito da cidade por indicação federal – eram engenheiros formados pela Escola Politécnica;
(C) o arrasamento do Morro do Castelo serviu de ensejo para um intenso debate nos meios político e intelectual, a respeito da questão nacional brasileira, tendo em vista os aspectos simbólicos e históricos da obra, pois tratava-se da adequação do centro da cidade para as comemorações do centenário da independência do Brasil;
(D) mesmo que tenham ocorrido em momentos diferentes, as duas intervenções urbanas assemelham-se no que diz respeito ao planejamento urbano de longo prazo, pois nos dois projetos foi pensada a expansão da rede pública de transporte, priorizando a ligação da área central à região mais populosa da cidade, a zona Sul;
(E) a reforma urbana de 1903-1906 teve como principal meta reorganizar, sanear e embelezar o espaço urbano, seguindo o modelo da Paris do Segundo Império, focando especialmente as áreas mais antigas da cidade, que ainda possuíam características do urbanismo colonial português.

41 - “A República liberal brasileira, institucionalizada pela Carta Constitucional de 1891, conheceria a sua consolidação apenas durante o governo Campos Sales. Deslocados os militares e as suas concepções centralizadoras de governo, (...) restava às elites políticas ascendentes, notadamente a de São Paulo, conceber os instrumentos que garantissem estabilidade ao novo regime. “
(CARVALHO, Maria Alice Rezende de. A crise e refundação republicana em 1930. In __________. Org. República no Catete. Rio de Janeiro: Museu da República, 2001. p. 89-109)
Assinale a alternativa que define o projeto político em implantação naquele momento:
(A) as elites políticas paulistas valeram-se dos princípios liberais presentes na Constituição de 1891 para implementação da política oligárquica, que visava fortalecer os laços federativos, tornando os entes da federação igualmente importantes para o processo político eleitoral;
(B) a elite cafeeira paulista, cuja tradição republicana remontava à década de 70 do século XIX, quando da fundação do Partido Republicano, objetivava a refundação da república após o interregno de governos militares, valendo-se dos princípios liberais da república norteamericana, e dessa forma trazer para o debate político o conjunto das camadas sociais, de todos os estados da federação, até então alijadas da participação política;
(C) a “política dos governadores” apoiou-se no campo econômico em uma política emisssionista, também conhecida como funding loan, cujo objetivo era promover o desenvolvimento industrial de acordo com as premissas ditadas pelo ministro da Fazenda Joaquim Murtinho;
(D) após as turbulências dos primeiros anos republicanos, a elite paulista idealizou a “política dos estados”, cujo princípio hierárquico preservava o poder nacional para si e seus aliados mineiros, mantendo as elites regionais no comando dos estados periféricos da federação;
(E) a “política dos estados” representava um tênue equilíbrio político nacional ao assegurar às elites de Minas Gerais e São Paulo, detentoras do poder na cena nacional, um forte poder intervencionista no jogo político oligárquico regional.

42 - A experiência histórica dos regimes fascistas conheceu a partir da década de 80 do século XX novas abordagens historiográficas, que significaram uma reavaliação do tema na forma como vinha até então sendo tratado. A respeito desses regimes, que marcaram profundamente a cena política do mundo no entre-guerras e das formas de sua abordagem pela produção historiográfica, assinale a alternativa INCORRETA:
(A) o ressurgimento de movimentos de extrema direita, sobretudo no continente europeu, trouxe novamente à tona a discussão do fascismo/fascismos como regimes que acusavam as formas liberais de responsabilidade pela crise das sociedades contemporâneas;
(B) o cenário político de uma Europa em busca de uma reunificação, acelerado após a queda do muro de Berlim em 1989, reforçou as clássicas análises historiográficas acerca do fascismo como movimentos historicamente circunscritos ao período do entre-guerras;
(C) as novas abordagens acerca das experiências fascistas procuram percebê-las de forma integrada e não fragmentada, como se estivessem restritas aos casos históricos emblemáticos da Alemanha e da Itália;
(D) a importância contemporânea conferida pela historiografia às experiências dos regimes fascistas é parte de uma intensa reflexão da nova história política e seus estudos acerca da memória;
(E) as abordagens historiográficas que procuram tratar os regimes fascistas como regimes totalitários é parte de um esforço no sentido de entendê-los em suas articulações e recorrências e com o fim da Guerra Fria o tema ressurge com força num quadro das sociedades de massa européias acossadas por problemas como imigração, desemprego.

43 -


A charge do cartunista Henfil satiriza o período da história brasileira recente conhecido como “O Milagre Brasileiro”, momento associado à prosperidade econômica, quando o país cresceu a taxas entre 10% e 14%. Sobre este período, é correto afirmar que:
(A) o desenvolvimento industrial, cerne da política do “Milagre Brasileiro”, decorreu das medidas tomadas pelo governo do Marechal Castelo Branco, em grande parte facilitadas pelo fim imediato da vigência da Carta Constitucional de 1946, o que possibilitou uma desregulamentação do setor produtivo;
(B) o “Milagre Brasileiro” é identificado ao momento de menor repressão política, uma vez que tendo seduzido os setores médios urbanos da população com o acesso a bens de consumo e um crescente mercado de trabalho, afastou-os da participação política;
(C) o “Milagre Brasileiro” apoiou-se em um modelo econômico de desenvolvimento, que privilegiava fortemente a industrialização em grandes projetos nacionais com financiamento público, tendo ocasionado uma disparada do processo inflacionário;
(D) ainda que apoiado em fortes taxas de crescimento econômico, a política do “Milagre” não significou alterações de fundo quanto ao mercado consumidor, mantendo o acesso limitado a bens de consumo durável;
(E) o “Milagre Brasileiro” é identificado ao momento de maior repressão política, após a decretação do AI-5, quando o país cresceu a taxas de dois dígitos, expandiu fortemente o setor industrial, estimulou grandes empreendimentos de infra-estrutura, manteve taxas reduzidas de desemprego e controlou a inflação.

44 - “Suponha-se que um dia, após uma guerra nuclear, um historiador intergaláctico pouse em um planeta então morto para inquirir sobre as causas da pequena e remota catástrofe registrada pelos sensores de sua galáxia. (...) Após alguns estudos, nosso observador conclui que os últimos dois séculos da história humana do planeta Terra são incompreensíveis sem o entendimento do termo ‘nação’ e do vocabulário que dele deriva.”
(Hobsbawm, Eric. Nações e Nacionalismos desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 11)

A respeito da questão nacional como um problema histórico, assinale a alternativa correta:
(A) apresenta-se como um fenômeno de longa duração, cujas origens remontam ao processo de constituição das monarquias medievais européias, época na qual houve um esforço desses estados em consolidar a identidade nacional por meio de uma língua comum;
(B) apresenta-se como um fenômeno relativamente recente, fruto das experiências históricas da modernidade e buscou ancorarse em um passado distante, sobretudo medieval. No caso de algumas sociedades européias do ocidente, a requalificação da herança medieval fomentou várias expressões artísticas, quer no campo das artes plásticas, da literatura e da música;
(C) apresentava-se, desde o fim da Revolução Francesa, como um projeto político que concebia a nação como um conceito restritivo, segundo o qual os direitos de uma comunidade a constituir-se como nação independente implicava na negação deste mesmo direito a outra comunidade;
(D) desde seus primórdios, os debates sobre o tema estavam focados em um ponto principal: atender aos anseios das camadas populares, tanto urbanas quanto rurais, de uma maior participação nas decisões políticas do Estado;
(E) como problema político e filosófico, esteve presente nos debates das Luzes setecentistas, que propunham a valorização das fronteiras como meio de defesa das identidades nacionais e dos particularismos.

45 - A ditadura varguista do Estado Novo (1937-1945) caracterizou-se por uma agenda de reformas que visavam a modernização do país por meio da criação de instituições políticas e culturais. Assinale a alternativa que apresenta uma seqüência INCORRETA dessas criações:
(A) Ministério da Educação e Saúde (MES), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Programa Radiofônico Hora do Brasil;
(B) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e Museu Imperial de Petrópolis;
(C) Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado (IPASE), Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP);
(D) Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Museu Imperial de Petrópolis, Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP);
(E) Justiça do Trabalho, Conselho Nacional do Petróleo e Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).

46 - “Cidadãos, por que fatalidade a questão que deveria facilmente reunir todos os sufrágios e todos os interesses dos representantes do povo parece ser somente o sinal de discórdias e de tempestades? Por que os fundadores da República estão divididos sobre a punição do tirano? Não estou menos convencido de que estamos todos tomados de um igual horror pelo despotismo, inflamados do mesmo zelo pela causa da santa igualdade, e concluo que devemos nos reunir comodamente nos princípios do interesse público e da eterna justiça. (...) Cidadãos, é do interesse supremo do bem-estar público que os lembro disso. Que motivo os força a se ocuparem de Luis? Não é do desejo de uma vingança indigna da nação; é a necessidade de cimentar a liberdade e a tranquilidade pública na punição do tirano.”
(GUMBRECHT, Hans Ulrich. As funções da retórica parlamentar na Revolução Francesa. Estudos preliminares para uma pragmática histórica do texto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. p. 153/4.)

A passagem acima está relacionada a um momento específico da Revolução Francesa, qual seja:
(A) o discurso de Mirabeau em defesa das medidas tomadas pela Assembléia Nacional no sentido de impor uma constituição ao rei Luis XVI;
(B) a radicalização do movimento revolucionário, com a instauração do processo do rei, após a proclamação da república em seguida à tentativa de fuga de Luis XVI;
(C) o momento de consolidação da revolução com o projeto napoleônico de pôr fim às últimas marcas do Antigo Regime com o julgamento do último monarca;
(D) a visão dos constitucionalistas franceses temerosos da restauração de uma monarquia absoluta e por isso empenhados na votação de uma nova constituição capaz de restringir os poderes monárquicos;
(E) a indefinição dos revolucionários quanto ao destino político do último monarca, Luis XVI, logo a seguir aos eventos do 14 de julho de 1789 em Paris.

47 - Assinale a alternativa que NÃO apresenta extrato de uma fonte referente à Inconfidência Mineira de 1789:
(A) “ Eu nasci no Brasil. Vós não ignorais a terrível escravidão que faz gemer nossa pátria. Cada dia se torna mais insuportável nosso estado, depois da vossa gloriosa independência, porque os bárbaros portugueses, receosos de que o exemplo seja abraçado, nada omitem que possa fazer-nos mais infelizes. A convicção de que estes usurpadores só meditam novas opressões contra as leis da natureza e contra a humanidade tem-nos resolvido seguir o farol que nos mostrais, a quebrar os grilhões, a renunciar à nossa moribunda liberdade, quase de todo acabrunhada pela força, único esteio da autoridade dos europeus nas regiões da América. (...) Neste estado de coisas, Senhor, olhamos, e com razão, somente para os Estados Unidos, porque seguiríamos o seu exemplo e porque a natureza, fazendo-nos habitantes do mesmo continente, como que nos ligou pelas relações de uma pátria comum.”
(B) “Estando, senhora, o país na decadência ponderada, nos pareceu alheio das piedosas intenções deV. Maj. o fazermos lançar sobre o povo uma derrama com que não pode; e muito mais depois de ter subido a tão excessiva quantia. Esta exação, não só redundava em total destruição dos vassalos de V. Maj. – cuja felicidade faz o único objetivo de seu felicíssimo reinado - , mas também causava grande dano aos demais tributos com que devem contribuir os mesmos povos para Sua Real Fazenda, por diferentes repartições.... Estas seriam sem dúvida as razões por que os Exmos. Generais desta capitania, trazendo nas suas instruções ordens para o lançamento da derrama, as não puseram em execução.”
(C) “E querendo eu favorecer o comércio, em comum benefício dos meus vassalos especialmente as manufaturas e fábricas de que resultam aumentos à navegação e se multiplicam as exportações de gênero, sou servido ordenar que, da publicação desta em diante, se não cortem as árvores de mangues que não estiverem já descaídas, debaixo da pena de cinquenta mil réis que será paga na cadeia, onde estarão os culpados por tempo de três meses, dobrando-se as condenações e o termo de prisão pelas reincidências; e, para que mais facilmente se hajam de conhecer e castigar as contravenções, se aceitarão denúncias em segredo e farão a favor dos denunciantes das referidas condenações, que no caso de não haver, se aplicarão para as despesas da Câmara.”
(D) “O referido governador me pediu duas companhias de infantaria, que fiz destacar de oficiais, e gente escolhida, e também me pareceu mandar mais uma das companhias do esquadrão da minha Guarda com a mesma escolha, porque havendo justo receio de estar algum tanto contaminada das mesmas idéias a tropa regular (...), lhe pode ser muito útil esta para qualquer diligência mais pronta. Tenho por certo com estas providências, e com a grande vigilância, com que o Visconde de Barbacena emprega os seus conhecidos talentos em acautelar tudo, não há que recear quanto ao presente; mas sim que prevenir para o futuro, porque o modo de pensar na Capitania é quase todo o mesmo em todos os que de algum modo nela figuram, e de tudo o que houver a respeito deste importantíssimo objeto darei conta a Vossa Excelência, para o por na real presença de Sua Majestade.”
(E) “Por ser digno de maior e mais particular averiguação o fato em que tocou o coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes nas suas últimas respostas, referindo-se ao Dr. Domingos Vidal Barbosa, acerca de uma carta escrita ao ministro dos Estados Unidos da América setentrional por um estudante do Brasil, que se achava em Montpellier: Ordeno a Vm.cê que se informe sumariamente em auto separado de todas as circunstâncias dele, inquirindo novamente o coronel, e tirando também por testemunhas os outros réus, o dito Domingos Vidal e as mais pessoas que se referirem nos seus depoimentos, com o mesmo escrivão que tenho nomeado para as mais diligências desta natureza; e deste sumário me entregará Vm.cê uma cópia autêntica logo que estiver concluído.”

48 - O século XVII assistiu a intensas disputas políticas entre as monarquias européias, que se materializavam por disputas pelo controle de áreas coloniais. O Reino de Espanha e os Países Baixos ocupavam, nesse cenário, um papel protagônico e ecos destas tensões chegaram à América portuguesa. Sobre esse período, é correto afirmar que:
(A) a “Guerra” dos Mascates, envolvendo senhores de engenho pernambucanos empobrecidos em decorrência de dívidas com os comerciantes holandeses, foi um dos conflitos que marcaram o chamado “Período Nassoviano” no Brasil;
(B) as questões religiosas, decorrentes da Reforma Protestante do século XVI, são decisivas para a compreensão das disputas políticas entre a Espanha, bastião católico, e os Países Baixos, adeptos da religião reformada. As repercussões da disputa hispano-holandesa alcançaram o nordeste do Brasil, que se tornou alvo de um projeto, por parte dos holandes, de conversão protestante;
(C) o “Período Nassoviano” no Brasil, registrado iconograficamente por Frans Post e Eckhout, é a expressão das disputas entre Espanha e Holanda na América e correspondeu ao período de auge político-econômico das Províncias Unidas dos Países Baixos, conhecido como “Século de Ouro”;
(D) acompanharam o conde de Nassau em seu governo vários homens de letras e líderes religiosos, que fizeram do Recife uma cidade singular em toda a América Portuguesa, por ter sediado o primeiro seminário de teologia das Américas, tendo em vista que a base do empreendimento colonial holandês foi a divulgação do calvinismo, confissão oficial dos Países Baixos;
(E) O fim da União Ibérica, do ponto de vista político, não alterou as bases do domínio holandês no Nordeste do Brasil, tendo em vista as estreitas relações entre portugueses e flamengos na empresa açucareira desde o início da colonização.

49 - No seu clássico “O Abolicionismo”, Joaquim Nabuco, ao citar Eusébio de Queirós, autor da lei que pôs fim ao tráfico negreiro intercontinental, afirma que “as nações como os homens devem prezar a sua reputação” e acrescenta: “... mas, a respeito do Tráfico, a verdade é que não salvamos um fio sequer da nossa. O crime nacional não podia ter sido mais escandaloso, e a reparação não começou ainda. No processo do Brasil um milhão de testemunhas hão de levantar-se contra nós, dos sertões da África, do fundo do oceano, dos barracões da praia, dos cemitérios das fazendas, e esse depoimento mudo há de ser mil vezes mais valioso para a história do que todos os protestos de generosidade e nobreza d’alma da Nação inteira.”
(NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Petrópolis: Vozes, 1977. p. 120.)

A respeito desse movimento, assinale a alternativa INCORRETA:
(A) o movimento abolicionista teve início imediatamente após a promulgação da lei Eusébio de Queirós e ganha força durante a Guerra do Paraguai, conquistando adeptos entre a elite política do Partido Liberal e líderes há muito identificados com a causa como Luís Gama;
(B) segundo Joaquim Nabuco, um dos líderes do movimento, este em sua primeira fase não contou com o apoio político dos dois tradicionais partidos, o Liberal e o Conservador;
(C) um dos marcos importantes desse movimento foi a fundação, por Joaquim Nabuco e André Rebouças, da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, que lançou um jornal de divulgação intitulado “O Abolicionista”;
(D) os abolicionistas brasileiros conquistaram importantes apoios internacionais para a causa, facilitados pelas ligações de Joaquim Nabuco, que desde 1882 havia se tornado membro efetivo da British and Foreign Anti-Slavery Society;
(E) na concepção de Joaquim Nabuco, um dos líderes do movimento, este restringiu-se a abolir o cativeiro, sem pensar medidas efetivas e complementares para a população a ser libertada.

50 - Assinale a alternativa que contém a seqüência correta acerca do período que compreende a chamada “redemocratização brasileira”, após o fim da ditadura militar:
(A) Emenda Dante de Oliveira, Passeata dos Cem Mil, Movimento das Diretas Já;
(B) Movimento das Diretas Já, Lei da Anistia, Milagre Brasileiro;
(C) Emenda Dante de Oliveira, Lei da Anistia, Plano Cruzado;
(D) Lei da Anistia, Movimento das Diretas Já, Emenda Dante de Oliveira;
(E) Milagre Brasileiro, Marcha da Família com Deus pela Liberdade, Emenda Dante de Oliveira.

Gabarito

21 - C 22- A 23 - B 24 - C 25 -E 26 - D 27 - D 28 - A 27 - D 28- B 29 - C 30 -B 31 - C 32 -B 33 - C 34 -E 35 -C 36- A 37 - B 38 - E 39- D 40 - D 41 - D 42 - B 43 - C 44 - B 45 - A 46 - B 47 - C 48 - C 49 -A 50 - D

FONTE: www.pciconcursos.com.br

"Filhas do Vento"
Onde os fantasmas da escravidão e do racismo afetam a vida dos personagens de maneira sutil



Numa pequena cidade em Minas Gerais as irmãs Maria "Cida" Aparecida (Taís Araújo) e Maria "Ju" da Ajuda (Thalma de Freitas) têm objetivos bem distintos. A primeira quer se tornar uma famosa atriz e para isto é imperativo que deixe o lugarejo, já a segunda só pensa em namorar. Vivem com Zé das Bicicletas (Mílton Gonçalves), o pai delas, que foi abandonado pela mulher e é muito rigoroso com o comportamento das filhas. Quando ele acusa injustamente Cida de estar se envolvendo com Marquinhos (Rocco Pitanga), o namorado de Ju, ela fica tão magoada que deixa a cidade e vai para o Rio de Janeiro na esperança de ser atriz, e consegue. A vida de cada irmã seguiu seu curso e elas ficam sem se falar por mais de 4 décadas.
Com a morte de Zé das Bicicletas, Cida retorna para a sua cidade natal para o enterro do pai. O encontro dela com Ju será inevitável, mas elas têm muita mágoa uma da outra e talvez seja difícil resolver 40 anos em alguns dias. “Filhas do Vento” aborda temas pertinentes às mulheres de qualquer parte do mundo, mas numa pequena cidade do interior do Brasil os fantasmas da escravidão e do racismo afetam a vida das personagens de forma sutil. Em uma brilhante peça ficcional de cunho político e social, o diretor substitui os tradicionais papéis estereotipados, comumente interpretados por atores negros nas telenovelas brasileiras, por uma rica e multifacetada construção de personagens, mesmo quando habilmente emprega diversos recursos da dramaturgia da novela para se comunicar com grandes audiências.
"Filhas do Vento" aborda a trajetória de duas gerações de uma família negra no interior de Minas Gerais. O longa ganhou os prêmios nas categorias direção, ator (Milton Gonçalves), atriz (Léa Garcia e Ruth de Souza), ator coadjuvante (Rocco Pitanga), atriz coadjuvante (Taís Araújo e Thalma de Freitas) e foi eleito pela crítica como melhor filme brasileiro.


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Homem do Ano



Por Roberto Guerra








Depois de festejado pela crítica e pelo público nos festivais por onde passou, chega às telas brasileiras O Homem do Ano , drama policial dirigido por José Henrique Fonseca inspirado no livro O Matador , de Patrícia Melo. O filme narra a trajetória de Máiquel (Murilo Benício), um típico jovem da periferia que se transforma em matador profissional levado por uma série de contingências. Depois de perder uma aposta e ter de pintar o cabelo de loiro, o personagem se desentende com Suel (Wagner Moura) - um marginal conhecido do bairro - depois que este zomba de seu novo visual. A discussão banal acaba virando um acerto de contas com dia e hora marcados. Por sorte, Máiquel acaba levando a melhor e vê sua vida virar do avesso quando é enaltecido pelos moradores por ter dado cabo do bandido. A força dos acontecimentos que conduzem Máiquel ao mundo do crime foi o que chamou a atenção de José Henrique Fonseca para o livro de Patrícia Melo. “O que me fascinou foi a idéia de fazer um filme que mostrasse um homem comum fadado pelo destino. Em sua ingenuidade, ele não consegue ver que é influenciado pelo ambiente que o cerca”, diz Fonseca. Decidido a levar a história para as telas, o diretor convidou seu pai, o escritor Rubens Fonseca, para fazer a adaptação do livro. No processo, a história, que originalmente se passava em São Paulo, foi transferida para a periferia do Rio de Janeiro. Outra mudança em relação a obra original foi a diminuição da violência. “O filme tenta compreender o porquê desse cara ter virado um matador. Por isso, deixei a violência um pouco de lado”, explica Fonseca. Murilo Benício considerou esse um dos trabalhos mais difíceis de sua carreira. Para se ter uma idéia, quatro dias de filmagens foram refeitos depois que o ator propôs ao diretor uma mudança no jeito de ser e no aspecto físico do personagem. “Foi uma composição difícil pra caramba, porque já tinha começado as filmagens e eu não sabia o que ia fazer”, diz Benício. Daí, propus ao Fonseca a idéia do queixo. O lance do queixo dava um aspecto tacanho, meio ingênuo ao Máiquel”, completa. O ator se refere ao queixo protuberante do personagem que, aliado aos seus traços de personalidade – algo entre a ingenuidade e impotência diante dos acontecimentos -, ajudou a dar vida a Máiquel. Aos ouvir os conselhos de Benício, Fonseca topou a idéia de primeira, mesmo sabendo que teria de refilmar várias cenas. A decisão se mostrou acertada, visto que Murilo Benício consegue dar o tom exato ao personagem, no que pode se considerar um de seus melhores trabalhos nas telas. Mas o ator não merece os méritos sozinho. Todo o resto do elenco está extremamente afiado. Cláudia Abreu está ótima como a cabeleireira suburbana Cledir. Natália Lage não poderia ter feito uma estréia melhor nas telas. Ela interpreta com competência e sem descompasso a adolescente problemática Érica, papel importante na trama. O filme conta ainda, em papéis de menor destaque, com outros nomes de peso como Jorge Dória, José Wilker, Agildo Ribeiro, Paulo César Pereio, Marilu Bueno, André Gonçalves, Lázaro Ramos e Mariana Ximenes. O Homem do Ano é mais uma prova de que os realizadores brasileiros estão trilhando o caminho certo, caminho que vai ao encontro do público. Retrata o drama brasileiro das periferias, dos jovens sem perspectivas que se enveredam no caminho do crime. Mas o tom panfletário de cinema-denúncia e a visão paternalista dos problemas da sociedade ficam de fora. É, antes de tudo, um bom filme policial, com história bem contada e atraente, um roteiro bem-amarrado e que certamente vai agradar ao espectador.












acesso em 08/12/2009
INTERTEXTO





Análise do livro Budapeste, de Chico Buarque de Hollanda







Abaixo vemos um vídeo da música Eu te amo de Chico Buarque com cenas do filme Budapeste.

















Quarto livro de Chico Buarque, que o escreveu na sua casa no Rio de Janeiro e no apartamento em Paris, Budapeste é caracterizado pela história de um ghost-writer, alguém que escreve o que outras pessoas assinam, artigos para jornal, discursos de autoridades, autobiografias e, no ápice, poemas. Um autor anônimo, um brilhante autor anônimo. O personagem principal de Budapeste é o ghost-writer José Costa que vive no Rio de Janeiro. É casado com Vanda, que engravidou num momento em que ele se sentia despojado de amor próprio. Gerou Joaquinzinho. Na qualidade de sócio-proprietário da Cunha & Costa Agência Cultural, fundada pelo amigo de infância Álvaro Cunha, seu trabalho é escrever para outras pessoas discursos, declarações, notas e artigos inteiros que, não raro, alcançam sucesso, são comentados, forjam jargões, mas o mantêm anônimo. Sua solidão, contudo, é relativa. Existem tantos como ele espalhados pelo mundo que chegam a se reunir em congressos mundiais de escritores desconhecidos. Na volta de um desses eventos, realizado em Istambul, Turquia, seu avião é desviado para Budapeste, Hungria, onde pernoita. Como ninguém por lá sabe pronunciar José Costa, surge, então, Zsoze Kósta, um brasileiro apaixonado, ou melhor seduzido, subjugado pela língua magiar a ponto de passar a viver com a bela Krista, mulher que lhe ensina o novo idioma. É do diálogo entre os dois personagens que se alimenta Budapeste. José é capaz de escrever sobre qualquer assunto, desde que seja sob a forma de prosa. Atinge o cume de sua carreira ao criar O ginógrafo, autobiografia erótica de Kaspar Krabbe, um executivo alemão que zarpou de Hamburgo e adentrou a Guanabara. No Brasil, aprendeu a escrever o português no corpo de uma certa Tereza, e mais tarde nos corpos de prostitutas e estudantes que chegavam a fazer fila para merecer tal atenção. Na pele de Zsoze, ele só escreve em versos. Assim que começa a dominar o idioma magiar, cria um livro de poemas, Titkos Háramsoros Versszakok ou Tercetos secretos, que sai assinado por um tal de Kocsis Ferenc, poeta em franca decadência. São referências cruzadas que se repetirão pelo livro. Em certo momento, José abandona Vanda no Rio de Janeiro para descobrir-se Zsoze nos braços de Krista, em Budapeste, e vice-versa. Sempre que está na capital húngara ou na Cidade Maravilhosa hospeda-se no Hotel Plaza, nome genérico que obedece à estranha regra de nunca se localizar numa praça. Mas Vanda acaba se apaixonando pela autobiografia do alemão Krabbe, escrita por José. Enquanto Krista considera os poemas nada mais que ?exóticos?, o que leva Zsoze a romper com ela. Esta idéia de espelhos, simulacros e duplos remete a escritores como Henry James e Jorge Luis Borges, como sinaliza o onipresente José Miguel Wisnik, encarregado do texto de apresentação do livro. Aos que se identificam mais com histórias do que com estruturas, porém, a liberdade de José-Zsoze em lidar com seus devaneios guarda ecos de Phillip Roth e Rubem Fonseca nos seus melhores momentos. A diferença é que o personagem de Chico Buarque se revela voyeur de si próprio e de seus delírios. O que chama a atenção em Budapeste, principalmente em relação aos enredos asfixiantes dos livros anteriores, é a linguagem mais palatável, sedutora até, com que envolve o leitor para enfim aprisioná-lo numa armadilha estilística: o que é verdade e o que não é? Enfim, um romance do duplo e de muita erudição - tão popular na literatura européia do século XIX e XX.













Adaptação do livro de Chico Buarque, 'Budapeste' chega aos cinemas

No elenco, Leonardo Medeiros e a atriz húngara Gabriella Hámori.



Cartaz do filme



Livro de Chico Buarque, “Budapeste” ganhou das mãos do cineasta Walter Carvalho e da roteirista Rita Buzzar adaptação para os cinemas. Para levar às telas a história de um ‘ghost writer’ que cai de amores por uma húngara, o diretor carregou parte da equipe para Budapeste e montou um grupo com profissionais de várias nacionalidades e, o mais difícil –idiomas.









O primeiro encontro entre Kriska (Gabrielle Hámori) e Costa (Leonardo Medeiros) na livraria húngara: improviso e ''frescor'' (Foto: Divulgação)



















“As filmagens na Hungria foram uma epifania. Eles só falam húngaro, que é uma língua muito difícil. A grande maioria falava inglês também, mas no set tinha de tudo: espanhol, francês, alemão. Era como uma Torre de Babel”, contou Carvalho. E apesar da aparente barreira inicial, a iniciativa de tentar repetir palavras em húngaro do diretor-assistente Rafael Salgado abriu as portas para a comunicação. “Rafa se arriscou, e eles começaram a perguntar também sobre as palavras em português. Sem falar nos palavrões”, brincou o cineasta. “Isso nos uniu.”



Giovana Antonelli também atuou neste filme.



Teve até choradeira na despedida da equipe brasileira da Hungria. “Eles nos disseram que mudamos a forma de eles fazerem cinema, porque eram acostumados a trabalhar com os americanos que, dizem, são antipáticos. A gente não se entendia, é verdade, mas havia uma comunicação. Passamos momentos de grande emoção”, contou Carvalho.



Quem mais sofreu com a língua foi o ator Leonardo Medeiros, que tinha muitas falas em húngaro e teve que estudar o idioma e a pronúncia. Aos olhos –e ouvidos– do público brasileiro, parece tudo perfeito e admirável. Mas ele diz que não chegou nem perto de dominar o húngaro. “Quando comecei a estudar, três meses antes das filmagens, percebi que jamais dominaria a língua. Aí me dispus a fazer um mergulho nas falas do personagem e, quando filmamos, me dediquei a aprendê-las. O húngaro é meio lírico, parece que você está dizendo poesia.”





Chico Buarque faz participação em ''Budapeste'', contracenando com Leonardo Medeiros (Foto: Divulgação)







Primeiro encontro



Carvalho afirmou que queria muito improviso no filme, pois acredita que as cenas, feitas espontaneamente, dão um frescor ao filme que, de outra forma, não pode ser conquistado. “O primeiro encontro dos personagens do Léo (Leonardo Medeiros) e da Gabriella (Hámori, atriz húngara que participa do longa), em cena, foi também o primeiro encontro dos dois atores.”



Na história, o “ghost writer” Costa (Medeiros), passeando por Budapeste, conhece Kriska (Gabrielle) ao cogitar comprar um livro para aprender húngaro. Ela diz: “Húngaro não se aprende nos livros”. E se dispõe a colocar o idioma –“o único que o Diabo respeita”– “na cabeça” do protagonista. Os dois vivem uma história de amor, interrompida quando Costa tem que voltar ao Rio de Janeiro, para sua mulher (Giovanna Antonelli) e seu trabalho.



Ao lançar um livro que vira best-seller, e cujo autor parece seduzir sua esposa, Costa se sente traído e ressentido. Decide abandonar tudo e retorna para Budapeste, onde, apesar de não entender perfeitamente o idioma, se sente em casa. Ele retoma sua ligação com o idioma, estudando, se aprofundando e escrevendo muito, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco, consegue reconstruir também seus laços com Kriska. Clichês húngaros



Atriz húngara de teatro e cinema, Gabriella Hámori foi escolhida por Walter Carvalho para “Budapeste” depois de alguns testes. “Meu personagem serve para ajudar Costa a ver ele mesmo, a se encontrar. Kriska também parece ter saído de um sonho. Às vezes, eu sinto como se ela não precisasse fazer nada além de existir”, conta a atriz.



No Brasil para a divulgação do filme, ela se disse orgulhosa de ser húngara, e definiu seu povo como “incrível”. “Eles são mais cautelosos, dificilmente aceitam algo de primeira. “ Talvez por isso a atriz tenha afirmado que, apesar de gostar dos improvisos pedidos pelo diretor, prefere saber exatamente o que tem de dizer e fazer com antecedência.



“Mas procurei atender tudo o que o Walter pediu. Quando ele disse que não queria que eu e o Leonardo nos encontrássemos antes da primeira cena, respeitei e nem busquei a foto dele na internet. Queria que fosse tudo muito real e totalmente livre.”



Gabriella afirmou que o livro de Chico Buarque não foi muito bem recebido pelos húngaros. "As pessoas que leram o livro gostaram, mas não penetrou fundo. Há muitos clichês sobre a Hungria, e talvez isso tenha influenciado", analisa.



O autor -que fez uma participação especial no filme- já afirmou que escreveu "Budapeste" antes de conhecer a cidade. "Tinha uma ideia onírica dela. Quando a conheci, fiquei com medo de encontrar na realidade uma coisa que imaginei tanto, e foi engraçado porque muita coisa que eu tinha sonhado realmente correspondia à realidade - embora o livro nunca tenha tido essa intenção porque não é realista."
Assista abaixo a uma cena deste filme.







ENEM 2009 - CIÊNCIAS HUMANAS (HISTÓRIA)

Questões de 46 a 72
Questão 46
O Egito é visitado anualmente por milhões de turistas de todos os quadrantes do planeta, desejosos de ver com os próprios olhos a grandiosidade do poder esculpida em pedra há milênios: as pirâmides de Gizeh, as tumbas do Vale dos Reis e os numerosos templos construídos ao longo do Nilo. O que hoje se transformou em atração turística era, no passado, interpretado de forma muito diferente, pois


A) significava, entre outros aspectos, o poder que os faraós tinham para escravizar grandes contingentes populacionais que trabalhavam nesses monumentos.
B) representava para as populações do alto Egito a possibilidade de migrar para o sul e encontrar trabalho nos canteiros faraônicos.
C) significava a solução para os problemas econômicos, uma vez que os faraós sacrificavam aos deuses suas riquezas, construindo templos.
D) representava a possibilidade de o faraó ordenar a sociedade, obrigando os desocupados a trabalharem em obras públicas, que engrandeceram o próprio Egito.
E) significava um peso para a população egípcia, que condenava o luxo faraônico e a religião baseada em crenças e superstições.


Questão 47
O que se entende por Corte do antigo regime é, em primeiro lugar, a casa de habitação dos reis de França, de suas famílias, de todas as pessoas que, de perto ou de longe, dela fazem parte. As despesas da Corte, da imensa casa dos reis, são consignadas no registro das despesas do reino da França sob a rubrica significativa de Casas Reais.
ELIAS, N. A sociedade de corte. Lisboa: Estampa, 1987.
Algumas casas de habitação dos reis tiveram grande efetividade política e terminaram por se transformar em patrimônio artístico e cultural, cujo exemplo é
A) o palácio de Versalhes.
B) o Museu Britânico.
C) a catedral de Colônia.
D) a Casa Branca.
E) a pirâmide do faraó Quéops.


Questão 48
Hoje em dia, nas grandes cidades, enterrar os mortos é uma prática quase íntima, que diz respeito apenas à família. A menos, é claro, que se trate de uma personalidade conhecida. Entretanto, isso nem sempre foi assim. Para um historiador, os sepultamentos são uma fonte de informações importantes para que se compreenda, por exemplo, a vida política das sociedades. No que se refere às práticas sociais ligadas aos sepultamentos,
A) na Grécia Antiga, as cerimônias fúnebres eram desvalorizadas, porque o mais importante era a democracia experimentada pelos vivos.
B) na Idade Média, a Igreja tinha pouca influência sobre os rituais fúnebres, preocupando-se mais com a salvação da alma.
C) no Brasil colônia, o sepultamento dos mortos nas igrejas era regido pela observância da hierarquia social.
D) na época da Reforma, o catolicismo condenou os excessos de gastos que a burguesia fazia para sepultar seus mortos.
E) no período posterior à Revolução Francesa, devido as grandes perturbações sociais, abandona-se a prática do luto.


Questão 49
A Idade Média é um extenso período da História do Ocidente cuja memória é construída e reconstruída segundo as circunstâncias das épocas posteriores. Assim, desde o Renascimento, esse período vem sendo alvo de diversas interpretações que dizem mais sobre o contexto histórico em que são produzidas do que propriamente sobre o Medievo. Um exemplo acerca do que está exposto no texto acima é
A) a associação que Hitler estabeleceu entre o III Reich e o Sacro Império Romano Germânico.
B) o retorno dos valores cristãos medievais, presentes nos documentos do Concílio Vaticano II.
C) a luta dos negros sul-africanos contra o apartheid inspirada por valores dos primeiros cristãos.
D) o fortalecimento político de Napoleão Bonaparte, que se justificava na amplitude de poderes que tivera Carlos Magno.
E) a tradição heroica da cavalaria medieval, que foi afetada negativamente pelas produções cinematográficas de Hollywood.


Questão 50
A primeira metade do século XX foi marcada por conflitos e processos que a inscreveram como um dos mais violentos períodos da história humana. Entre os principais fatores que estiveram na origem dos conflitos ocorridos durante a primeira metade do século XX estão
A) a crise do colonialismo, a ascensão do nacionalismo e do totalitarismo.
B) o enfraquecimento do império britânico, a Grande Depressão e a corrida nuclear.
C) o declínio britânico, o fracasso da Liga das Nações e a Revolução Cubana.
D) a corrida armamentista, o terceiro-mundismo e o expansionismo soviético.
E) a Revolução Bolchevique, o imperialismo e a unificação da Alemanha.


Questão 51
Os regimes totalitários da primeira metade do século XX apoiaram-se fortemente na mobilização da juventude em torno da defesa de ideias grandiosas para o futuro da nação. Nesses projetos, os jovens deveriam entender que só havia uma pessoa digna de ser amada e obedecida, que era o líder. Tais movimentos sociais juvenis contribuíram para a implantação e a sustentação do nazismo, na Alemanha, e do fascismo, na Itália, Espanha e Portugal. A atuação desses movimentos juvenis caracterizava-se
A) pelo sectarismo e pela forma violenta e radical com que enfrentavam os opositores ao regime.
B) pelas propostas de conscientização da população acerca dos seus direitos como cidadãos.
C) pela promoção de um modo de vida saudável, que mostrava os jovens como exemplos a seguir.
D) pelo diálogo, ao organizar debates que opunham jovens idealistas e velhas lideranças conservadoras.
E) pelos métodos políticos populistas e pela organização de comícios multitudinários.


Questão 52
Do ponto de vista geopolítico, a Guerra Fria dividiu a Europa em dois blocos. Essa divisão propiciou a formação de alianças antagônicas de caráter militar, como a OTAN, que aglutinava os países do bloco ocidental, e o Pacto de Varsóvia, que concentrava os do bloco oriental. É importante destacar que, na formação da OTAN, estão presentes, além dos países do oeste europeu, os EUA e o Canadá. Essa divisão histórica atingiu igualmente os âmbitos político e econômico que se refletia pela opção entre os modelos capitalista e socialista.
Essa divisão europeia ficou conhecida como
A) Cortina de Ferro.
B) Muro de Berlim.
C) União Europeia.
D) Convenção de Ramsar.
E) Conferência de Estocolmo.


Questão 53
O ano de 1968 ficou conhecido pela efervescência social, tal como se pode comprovar pelo seguinte trecho, retirado de texto sobre propostas preliminares para uma revolução cultural: “É preciso discutir em todos os lugares e com todos. O dever de ser responsável e pensar politicamente diz respeito a todos, não é privilégio de uma minoria de iniciados. Não devemos nos surpreender com o caos das ideias, pois essa é a condição para a emergência de novas ideias. Os pais do regime devem compreender que autonomia não é uma palavra vã; ela supõe a partilha do poder, ou seja, a mudança de sua natureza. Que ninguém tente rotular o movimento atual; ele não tem etiquetas e não precisa delas”.
Journal de la comune étudiante. Textes et documents. Paris: Seuil, 1969 (adaptado).
Os movimentos sociais, que marcaram o ano de 1968,
A) foram manifestações desprovidas de conotação política, que tinham o objetivo de questionar a rigidez dos padrões de comportamento social fundados em valores tradicionais da moral religiosa.
B) restringiram-se às sociedades de países desenvolvidos, onde a industrialização avançada, a penetração dos meios de comunicação de massa e a alienação cultural que deles resultava eram mais evidentes.
C) resultaram no fortalecimento do conservadorismo político, social e religioso que prevaleceu nos países ocidentais durante as décadas de 70 e 80.
D) tiveram baixa repercussão no plano político, apesar de seus fortes desdobramentos nos planos social e cultural, expressos na mudança de costumes e na contracultura.
E) inspiraram futuras mobilizações, como o pacifismo, o ambientalismo, a promoção da equidade de gêneros e a defesa dos direitos das minorias.


Questão 54
Os Yanomami constituem uma sociedade indígena do norte da Amazônia e formam um amplo conjunto linguístico e cultural. Para os Yanomami, urihi, a “terrafloresta”, não é um mero cenário inerte, objeto de exploração econômica, e sim uma entidade viva, animada por uma dinâmica de trocas entre os diversos seres que a povoam. A floresta possui um sopro vital, wixia, que é muito longo. Se não a desmatarmos, ela não morrerá. Ela não se decompõe, isto é, não se desfaz. É graças ao seu sopro úmido que as plantas crescem. A floresta não está morta pois, se fosse assim, as florestas não teriam folhas. Tampouco se veria água. Segundo os Yanomami, se os brancos os fizerem desaparecer para desmatá-la e morar no seu lugar, ficarão pobres e acabarão tendo fome e sede.
ALBERT, B. Yanomami, o espírito da floresta. Almanaque Brasil Socioambiental. São Paulo: ISA, 2007 (adaptado).
De acordo com o texto, os Yanomami acreditam que
A) a floresta não possui organismos decompositores.
B) o potencial econômico da floresta deve ser explorado.
C) o homem branco convive harmonicamente com urihi.
D) as folhas e a água são menos importantes para a floresta que seu sopro vital.
E) Wixia é a capacidade que tem a floresta de se sustentar por meio de processos vitais.

Questão 55
O fim da Guerra Fria e da bipolaridade, entre as décadas de 1980 e 1990, gerou expectativas de que seria instaurada uma ordem internacional marcada pela redução de conflitos e pela multipolaridade. O panorama estratégico do mundo pós-Guerra Fria apresenta
A) o aumento de conflitos internos associados ao nacionalismo, às disputas étnicas, ao extremismo religioso e ao fortalecimento de ameaças como o terrorismo, o tráfico de drogas e o crime organizado.
B) o fim da corrida armamentista e a redução dos gastos militares das grandes potências, o que se traduziu em maior estabilidade nos continentes europeu e asiático, que tinham sido palco da Guerra Fria.
C) o desengajamento das grandes potências, pois as intervenções militares em regiões assoladas por conflitos passaram a ser realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), com maior envolvimento de países emergentes.
D) a plena vigência do Tratado de Não Proliferação, que
afastou a possibilidade de um conflito nuclear como ameaça global, devido à crescente consciência política internacional acerca desse perigo.
E) a condição dos EUA como única superpotência, mas que se submetem às decisões da ONU no que concerne às ações militares.

Questão 56
Na democracia estado-unidense, os cidadãos são incluídos na sociedade pelo exercício pleno dos direitos políticos e também pela ideia geral de direito de propriedade. Compete ao governo garantir que esse direito não seja violado. Como consequência, mesmo aqueles que possuem uma pequena propriedade sentem-se cidadãos de pleno direito.
Na tradição política dos EUA, uma forma de incluir socialmente os cidadãos é
A) submeter o indivíduo à proteção do governo.
B) hierarquizar os indivíduos segundo suas posses.
C) estimular a formação de propriedades comunais.
D) vincular democracia e possibilidades econômicas individuais.
E) defender a obrigação de que todos os indivíduos tenham propriedades.

Questão 57
Na década de 30 do século XIX, Tocqueville escreveu as seguintes linhas a respeito da moralidade nos EUA: “A opinião pública norte-americana é particularmente dura com a falta de moral, pois esta desvia a atenção frente à busca do bem-estar e prejudica a harmonia doméstica, que é tão essencial ao sucesso dos negócios.
Nesse sentido, pode-se dizer que ser casto é uma questão de honra”.
TOCQUEVILLE, A. Democracy in America. Chicago: Encyclopædia Britannica, Inc., Great Books 44, 1990 (adaptado).

Do trecho, infere-se que, para Tocqueville, os norteamericanos do seu tempo
A) buscavam o êxito, descurando as virtudes cívicas.
B) tinham na vida moral uma garantia de enriquecimento rápido.
C) valorizavam um conceito de honra dissociado do comportamento ético.
D) relacionavam a conduta moral dos indivíduos com o progresso econômico.
E) acreditavam que o comportamento casto perturbava a harmonia doméstica.

Questão 58
Segundo Aristóteles, “na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios — esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais —, tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das
atividades políticas”.
VAN ACKER, T. Grécia. A vida cotidiana na cidade-Estado. São Paulo: Atual, 1994.

O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite compreender que a cidadania
A) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada, pois é condenável que os políticos de qualquer época fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos cidadãos tem de trabalhar.
B) era entendida como uma dignidade própria dos grupos sociais superiores, fruto de uma concepção política profundamente hierarquizada da sociedade.
C) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção política democrática, que levava todos os habitantes da pólis a participarem da vida cívica.
D) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado às atividades vinculadas aos tribunais.
E) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles que se dedicavam à política e que tinham tempo para resolver os problemas da cidade.

Questão 59
Para Caio Prado Jr., a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social ― o oposto da interligação com objetivos internos ― trazida da colônia. Este momento alto estaria, ou esteve, no futuro. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda, encontraremos algo análogo. O país será moderno e estará formado quando superar a sua herança portuguesa, rural e autoritária, quando então teríamos um país democrático. Também aqui o ponto de chegada está mais adiante, na dependência das decisões do presente. Celso Furtado, por seu turno, dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando, principalmente do econômico, não passarem para dentro do país. Como para os outros dois, a conclusão do processo encontra-se no futuro, que agora parece remoto.
SCHWARZ, R. Os sete fôlegos de um livro. Sequências brasileiras. São Paulo: Cia. das Letras,1999 (adaptado).
Acerca das expectativas quanto à formação do Brasil, a sentença que sintetiza os pontos de vista apresentados no texto é:
A) Brasil, um país que vai pra frente.
B) Brasil, a eterna esperança.
C) Brasil, glória no passado, grandeza no presente.
D) Brasil, terra bela, pátria grande.
E) Brasil, gigante pela própria natureza.

Questão 60
A definição de eleitor foi tema de artigos nas Constituições brasileiras de 1891 e de 1934.

Diz a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891:
Art. 70. São eleitores os cidadãos maiores de 21 anos que se alistarem na forma da lei.
A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934, por sua vez, estabelece que:
Art. 180. São eleitores os brasileiros de um e de outro sexo, maiores de 18 anos, que se alistarem na forma da lei. Ao se comparar os dois artigos, no que diz respeito ao
gênero dos eleitores, depreende-se que
A) a Constituição de 1934 avançou ao reduzir a idade mínima para votar.
B) a Constituição de 1891, ao se referir a cidadãos, referia-se também às mulheres.
C) os textos de ambas as Cartas permitiam que qualquer cidadão fosse eleitor.
D) o texto da carta de 1891 já permitia o voto feminino.
E) a Constituição de 1891 considerava eleitores apenas indivíduos do sexo masculino.

Questão 61
O autor da constituição de 1937, Francisco Campos, afirma no seu livro, O Estado Nacional, que o eleitor seria apático; a democracia de partidos conduziria à desordem; a independência do Poder Judiciário acabaria em injustiça e ineficiência; e que apenas o Poder Executivo, centralizado em Getúlio Vargas, seria capaz de dar racionalidade imparcial ao Estado, pois Vargas teria providencial intuição do bem e da verdade, além de ser um gênio político.
CAMPOS, F. O Estado nacional. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940 (adaptado).

Segundo as ideias de Francisco Campos,
A) os eleitores, políticos e juízes seriam malintencionados.
B) o governo Vargas seria um mal necessário, mas transitório.
C) Vargas seria o homem adequado para implantar a democracia de partidos.
D) a Constituição de 1937 seria a preparação para uma futura democracia liberal.
E) Vargas seria o homem capaz de exercer o poder de modo inteligente e correto.

Questão 62
A partir de 1942 e estendendo-se até o final do Estado Novo, o Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio de Getúlio Vargas falou aos ouvintes da Rádio Nacional semanalmente, por dez minutos, no programa “Hora do Brasil”. O objetivo declarado do governo era esclarecer os trabalhadores acerca das inovações na legislação de proteção ao trabalho.
GOMES, A. C. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: IUPERJ / Vértice. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1988 (adaptado).

Os programas “Hora do Brasil” contribuíram para
A) conscientizar os trabalhadores de que os direitos sociais foram conquistados por seu esforço, após anos de lutas sindicais.
B) promover a autonomia dos grupos sociais, por meio de uma linguagem simples e de fácil entendimento.
C) estimular os movimentos grevistas, que reivindicavam um aprofundamento dos direitos trabalhistas.
D) consolidar a imagem de Vargas como um governante protetor das massas.
E) aumentar os grupos de discussão política dos trabalhadores, estimulados pelas palavras do ministro.

Questão 63
No final do século XVI, na Bahia, Guiomar de Oliveira denunciou Antônia Nóbrega à Inquisição. Segundo o depoimento, esta lhe dava “uns pós não sabe de quê, e outros pós de osso de finado, os quais pós ela confessante deu a beber em vinho ao dito seu marido para ser seu amigo e serem bem-casados, e que todas estas coisas fez tendo-lhe dito a dita Antônia e ensinado que eram coisas diabólicas e que os diabos lha ensinaram”.
ARAÚJO, E. O teatro dos vícios. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. Brasília: UnB/José Olympio, 1997.
Do ponto de vista da Inquisição,
A) o problema dos métodos citados no trecho residia na dissimulação, que acabava por enganar o enfeitiçado.
B) o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja e somente a justiça do fogo poderia eliminá-lo.
C) os ingredientes em decomposição das poções mágicas eram condenados porque afetavam a saúde da população.
D) as feiticeiras representavam séria ameaça à sociedade, pois eram perceptíveis suas tendências feministas.
E) os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja.

Questão 64
A formação dos Estados foi certamente distinta na Europa, na América Latina, na África e na Ásia. Os Estados atuais, em especial na América Latina — onde as instituições das populações locais existentes à época da conquista ou foram eliminadas, como no caso do México e do Peru, ou eram frágeis, como no caso do Brasil —, são o resultado, em geral, da evolução do transplante de instituições europeias feito pelas metrópoles para suas colônias. Na África, as colônias tiveram fronteiras arbitrariamente traçadas, separando etnias, idiomas e tradições, que, mais tarde, sobreviveram ao processo de descolonização, dando razão para conflitos que, muitas vezes, têm sua verdadeira origem em disputas pela exploração de recursos naturais. Na Ásia, a colonização europeia se fez de forma mais indireta e encontrou sistemas políticos e administrativos mais sofisticados, aos quais se superpôs. Hoje, aquelas formas anteriores de organização, ou pelo menos seu espírito, sobrevivem nas organizações políticas do Estado asiático.
GUIMARÃES, S. P. Nação, nacionalismo, Estado. Estudos Avançados. São Paulo: EdUSP, v. 22, n.º 62, jan.- abr. 2008 (adaptado).

Relacionando as informações ao contexto histórico e geográfico por elas evocado, assinale a opção correta acerca do processo de formação socioeconômica dos continentes mencionados no texto.
A) Devido à falta de recursos naturais a serem explorados no Brasil, conflitos étnicos e culturais como os ocorridos na África estiveram ausentes no período da independência e formação do Estado brasileiro.
B) A maior distinção entre os processos histórico formativos dos continentes citados é a que se estabelece entre colonizador e colonizado, ou seja, entre a Europa e os demais.
C) À época das conquistas, a América Latina, a África e a Ásia tinham sistemas políticos e administrativos muito mais sofisticados que aqueles que lhes foram impostos pelo colonizador.
D) Comparadas ao México e ao Peru, as instituições brasileiras, por terem sido eliminadas à época da conquista, sofreram mais influência dos modelos institucionais europeus.
E) O modelo histórico da formação do Estado asiático equipara-se ao brasileiro, pois em ambos se manteve o espírito das formas de organização anteriores à conquista.


Questão 65
No tempo da independência do Brasil, circulavam nas classes populares do Recife trovas que faziam alusão à revolta escrava do Haiti:
Marinheiros e caiados
Todos devem se acabar,
Porque só pardos e pretos
O país hão de habitar.
AMARAL, F. P. do. Apud CARVALHO, A. Estudos pernambucanos. Recife: Cultura Acadêmica, 1907.

O período da independência do Brasil registra conflitos raciais, como se depreende
A) dos rumores acerca da revolta escrava do Haiti, que circulavam entre a população escrava e entre os mestiços pobres, alimentando seu desejo por mudanças.
B) da rejeição aos portugueses, brancos, que significava a rejeição à opressão da Metrópole, como ocorreu na Noite das Garrafadas.
C) do apoio que escravos e negros forros deram à monarquia, com a perspectiva de receber sua proteção contra as injustiças do sistema escravista.
D) do repúdio que os escravos trabalhadores dos portos demonstravam contra os marinheiros, porque estes representavam a elite branca opressora.
E) da expulsão de vários líderes negros independentistas, que defendiam a implantação de uma república negra, a exemplo do Haiti.

Questão 66
Colhe o Brasil, após esforço contínuo dilatado no tempo, o que plantou no esforço da construção de sua inserção internacional. Há dois séculos formularam-se os pilares da política externa. Teve o país inteligência de longo prazo e cálculo de oportunidade no mundo difuso da transição da hegemonia britânica para o século americano. Engendrou concepções, conceitos e teoria própria no século XIX, de José Bonifácio ao Visconde do Rio Branco. Buscou autonomia decisória no século XX. As elites se interessaram, por meio de calorosos debates, pelo destino do Brasil. O país emergiu, de Vargas aos militares, como ator responsável e previsível nas ações externas do Estado. A mudança de regime político para a democracia não alterou o pragmatismo externo, mas o aperfeiçoou.
SARAIVA, J. F. S. O lugar do Brasil e o silêncio do parlamento. Correio Braziliense, Brasília, 28 maio 2009 (adaptado).

Sob o ponto de vista da política externa brasileira no século XX, conclui-se que
A) o Brasil é um país periférico na ordem mundial, devido às diferentes conjunturas de inserção internacional.
B) as possibilidades de fazer prevalecer ideias e conceitos próprios, no que tange aos temas do comércio internacional e dos países em desenvolvimento, são mínimas.
C) as brechas do sistema internacional não foram bem aproveitadas para avançar posições voltadas para a criação de uma área de cooperação e associação integrada a seu entorno geográfico.
D) os grandes debates nacionais acerca da inserção internacional do Brasil foram embasados pelas elites do Império e da República por meio de consultas aos diversos setores da população.
E) a atuação do Brasil em termos de política externa evidencia que o país tem capacidade decisória própria, mesmo diante dos constrangimentos internacionais.

Questão 67

A prosperidade induzida pela emergência das máquinas de tear escondia uma acentuada perda de prestígio. Foi nessa idade de ouro que os artesãos, ou os tecelões temporários, passaram a ser denominados, de modo genérico, tecelões de teares manuais. Exceto em alguns ramos especializados, os velhos artesãos foram colocados lado a lado com novos imigrantes, enquanto pequenos fazendeiros-tecelões abandonaram suas pequenas propriedades para se concentrar na atividade de tecer. Reduzidos à completa dependência dos teares mecanizados ou dos fornecedores de matéria-prima, os tecelões ficaram expostos a sucessivas reduções dos rendimentos.
THOMPSON, E. P. The making of the english working class. Harmondsworth: Penguin Books, 1979 (adaptado).

Com a mudança tecnológica ocorrida durante a Revolução Industrial, a forma de trabalhar alterou-se porque
A) a invenção do tear propiciou o surgimento de novas relações sociais.
B) os tecelões mais hábeis prevaleceram sobre os inexperientes.
C) os novos teares exigiam treinamento especializado para serem operados.
D) os artesãos, no período anterior, combinavam a tecelagem com o cultivo de subsistência.
E) os trabalhadores não especializados se apropriaram dos lugares dos antigos artesãos nas fábricas.

Questão 68
Até o século XVII, as paisagens rurais eram marcadas por atividades rudimentares e de baixa produtividade. A partir da Revolução Industrial, porém, sobretudo com o advento da revolução tecnológica, houve um desenvolvimento contínuo do setor agropecuário.
São, portanto, observadas consequências econômicas, sociais e ambientais inter-relacionadas no período posterior à Revolução Industrial, as quais incluem
A) a erradicação da fome no mundo.
B) o aumento das áreas rurais e a diminuição das áreas urbanas.
C) a maior demanda por recursos naturais, entre os quais os recursos energéticos.
D) a menor necessidade de utilização de adubos e corretivos na agricultura.
E) o contínuo aumento da oferta de emprego no setor primário da economia, em face da mecanização.

Questão 69
Como se assistisse à demonstração de um espetáculo mágico, ia revendo aquele ambiente tão característico de família, com seus pesados móveis de vinhático ou de jacarandá, de qualidade antiga, e que denunciavam um passado ilustre, gerações de Meneses talvez mais singelos e mais calmos; agora, uma espécie de desordem, de relaxamento, abastardava aquelas qualidades primaciais. Mesmo assim era fácil perceber o que haviam sido, esses nobres da roça, com seus cristais que brilhavam mansamente na sombra, suas pratas semi empoeiradas que atestavam o esplendor esvanecido, seus marfins e suas opalinas – ah, respirava-se ali conforto, não havia dúvida, mas era apenas uma sobrevivência de coisas idas. Dir-se-ia, ante esse mundo que se ia desagregando, que um mal oculto o roía, como um tumor latente em suas entranhas.
CARDOSO, L. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 (adaptado).
O mundo narrado nesse trecho do romance de Lúcio Cardoso, acerca da vida dos Meneses, família da aristocracia rural de Minas Gerais, apresenta não apenas a história da decadência dessa família, mas é, ainda, a representação literária de uma fase de desagregação política, social e econômica do país. O recurso expressivo que formula literariamente essa desagregação histórica é o de descrever a casa dos Meneses como
A) ambiente de pobreza e privação, que carece de conforto mínimo para a sobrevivência da família.
B) mundo mágico, capaz de recuperar o encantamento perdido durante o período de decadência da aristocracia rural mineira.
C) cena familiar, na qual o calor humano dos habitantes da casa ocupa o primeiro plano, compensando a frieza e austeridade dos objetos antigos.
D) símbolo de um passado ilustre que, apesar de superado, ainda resiste à sua total dissolução graças ao cuidado e asseio que a família dispensa à conservação da casa.
E) espaço arruinado, onde os objetos perderam seu esplendor e sobre os quais a vida repousa como lembrança de um passado que está em vias de desaparecer completamente.


Questão 70

O suíço Thomas Davatz chegou a São Paulo em 1855 para trabalhar como colono na fazenda de café Ibicaba, em Campinas. A perspectiva de prosperidade que o atraiu para o Brasil deu lugar a insatisfação e revolta, que ele registrou em livro. Sobre o percurso entre o porto de Santos e o planalto paulista, escreveu Davatz: “As estradas do Brasil, salvo em alguns trechos, são péssimas. Em quase toda parte, falta qualquer espécie de calçamento ou mesmo de saibro. Constam apenas de terra simples, sem nenhum benefício. É fácil prever que nessas estradas não se encontram estalagens e hospedarias como as da Europa. Nas cidades maiores, o viajante pode naturalmente encontrar aposento sofrível; nunca, porém, qualquer coisa de comparável à comodidade que proporciona na Europa qualquer estalagem rural. Tais cidades são, porém, muito poucas na distância que vai de Santos a Ibicaba e que se percorre em cinquenta horas no mínimo”.
Em 1867 foi inaugurada a ferrovia ligando Santos a Jundiaí, o que abreviou o tempo de viagem entre o litoral e o planalto para menos de um dia. Nos anos seguintes, foram construídos outros ramais ferroviários que articularam o interior cafeeiro ao porto de exportação, Santos.
DAVATZ, T. Memórias de um colono no Brasil. São Paulo: Livraria Martins, 1941 (adaptado).
O impacto das ferrovias na promoção de projetos de colonização com base em imigrantes europeus foi importante, porque
A) o percurso dos imigrantes até o interior, antes das ferrovias, era feito a pé ou em muares; no entanto, o tempo de viagem era aceitável, uma vez que o café era plantado nas proximidades da capital, São Paulo.
B) a expansão da malha ferroviária pelo interior de São Paulo permitiu que mão-de-obra estrangeira fosse contratada para trabalhar em cafezais de regiões cada vez mais distantes do porto de Santos.
C) o escoamento da produção de café se viu beneficiado pelos aportes de capital, principalmente de colonos italianos, que desejavam melhorar sua situação econômica.
D) os fazendeiros puderam prescindir da mão-de-obra europeia e contrataram trabalhadores brasileiros provenientes de outras regiões para trabalhar em suas plantações.
E) as notícias de terras acessíveis atraíram para São Paulo grande quantidade de imigrantes, que adquiriram vastas propriedades produtivas.

Questão 71
Além dos inúmeros eletrodomésticos e bens eletrônicos, o automóvel produzido pela indústria fordista promoveu, a partir dos anos 50, mudanças significativas no modo de vida dos consumidores e também na habitação e nas cidades. Com a massificação do consumo dos bens modernos, dos eletroeletrônicos e também do automóvel, mudaram radicalmente o modo de vida, os valores, a cultura e o conjunto do ambiente construído. Da ocupação do solo urbano até o interior da moradia, a transformação foi profunda.
MARICATO, E. Urbanismo na periferia do mundo globalizado: metrópoles brasileiras. Disponível em: http://www.scielo.br. Acesso em: 12 ago. 2009 (adaptado).
Uma das consequências das inovações tecnológicas das últimas décadas, que determinaram diferentes formas de uso e ocupação do espaço geográfico, é a instituição das chamadas cidades globais, que se caracterizam por
A) possuírem o mesmo nível de influência no cenário mundial.
B) fortalecerem os laços de cidadania e solidariedade entre os membros das diversas comunidades.
C) constituírem um passo importante para a diminuição das desigualdades sociais causadas pela polarização social e pela segregação urbana.
D) terem sido diretamente impactadas pelo processo de internacionalização da economia, desencadeado a partir do final dos anos 1970.
E) terem sua origem diretamente relacionadas ao processo de colonização ocidental do século XIX.

Questão 72

Populações inteiras, nas cidades e na zona rural, dispõem da parafernália digital global como fonte de educação e de formação cultural. Essa simultaneidade de cultura e informação eletrônica com as formas tradicionais e orais é um desafio que necessita ser discutido. A exposição, via mídia eletrônica, com estilos e valores culturais de outras sociedades, pode inspirar apreço, mas também distorções e ressentimentos. Tanto quanto há necessidade de uma cultura tradicional de posse da educação letrada, também é necessário criar estratégias de alfabetização eletrônica, que passam a ser o grande canal de informação das culturas segmentadas no interior dos grandes centros urbanos e das zonas rurais. Um novo modelo de educação.
BRIGAGÃO, C. E.; RODRIGUES, G. A globalização a olho nu: o mundo conectado. São Paulo: Moderna, 1998 (adaptado).
Com base no texto e considerando os impactos culturais da difusão das tecnologias de informação no marco da globalização, depreende-se que
A) a ampla difusão das tecnologias de informação nos centros urbanos e no meio rural suscita o contato entre diferentes culturas e, ao mesmo tempo, traz a necessidade de reformular as concepções tradicionais de educação.
B) a apropriação, por parte de um grupo social, de valores e ideias de outras culturas para benefício próprio é fonte de conflitos e ressentimentos.
C) as mudanças sociais e culturais que acompanham o processo de globalização, ao mesmo tempo em que refletem a preponderância da cultura urbana, tornam obsoletas as formas de educação tradicionais próprias do meio rural.
D) as populações nos grandes centros urbanos e no meio rural recorrem aos instrumentos e tecnologias de informação basicamente como meio de comunicação mútua, e não os veem como fontes de educação e cultura.
E) a intensificação do fluxo de comunicação por meios eletrônicos, característica do processo de globalização, está dissociada do desenvolvimento social e cultural que ocorre no meio rural.
GABARITO
46 - A
47 - A
48 - C
49 - A
50 - E
51 - A
52 - A
53 - E
54 - E
55 - A
56 - D
57 - D
58 - E
59 - B
60 - E
61 - E
62 - D
63 - E
64 - B
65 - A
66 - E
67 - A
68 - C
69 - B
70 - B
71 - D
72 - A