Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de maio de 2010

CRÔNICA

Crônicas da vida alheia


Odair de Morais

Especial para o Diário de Cuiabá


Tempos atrás escrevi duas ou três croniquetas inspiradas em fatos que tinham sido protagonizados por conhecidos meus. Estou me especializando em matéria de vida alheia. Não que isso evidencie certa preferência por determinados assuntos ou uma vocação para fofoqueiro, como me escreve uma curiosa leitora, investigadora e estudante de Letras. Não é nada disso, boneca. Lá pelas tantas ela me pergunta ainda se eu realmente precisava me valer de tal expediente. Conforme avalia, tudo não passa de um recurso linguístico utilizado para contar mais uma historia “até engraçadinha”, na opinião dela. Fernando Sabino certa vez escreveu que para se tornar escritor é preciso estar decidido a contar mentiras. Deve ter sido o Sabino. Mas, se não foi, não faz a menor diferença. Tenho um amigo que me esculacha veementemente quando faço uma citação. Qualé?, ele me diz: Vai ficar tirando uma de intelectual agora? E está cheio de razão. Bobeira a gente querer agradar os críticos sem, primeiramente, pensar no leitor. O lance é dar risada, minha senhora, e gozar a vida. Tanto que, por causa daqueles textos que despretensiosamente narravam as peripécias de meus conhecidos, alguns chegados meus começaram a me parar na rua (ou mesmo me telefonar) para perguntar se o que haviam lido de fato se confirmava. Alguns, inclusive, chegaram a me contar suas histórias. E até quiseram vê-las aqui publicadas. Manoel, por exemplo, me abordou às vésperas do jogo decisivo entre Corinthians e Flamengo pela Libertadores: “Viu o que a torcida do Flamengo aprontou com o Ronaldo no Maracanã? Contratou vinte travestis, os quais chamaram de ronaldetes, pra recepcionar e desestabilizar o Fenômeno em campo. Imagina vinte travestis te enchendo o saco e gritando o seu nome.
Não sou homofóbico, cara, mas uma vez, saindo da faculdade, saca só o que aconteceu. Eu tava aguardando o ônibus, 11h da noite, quando dois gays apareceram. Sabe-se lá de onde. Aproximaram de mim e puxaram conversa. Perguntaram coisas triviais como: Tal ônibus já passou? Que ônibus cê tá esperando? Opa!, estranhei. Será que demora? Disseram que eram cabeleireiros. Até me deram um cartão, que, segundo eles, valia um corte “completamente de graça”. Meu, os caras já estavam incomodando... Cada vez mais invasivos, tocavam meu ombro como se eu tivesse dado confiança. Eu não tava gostando daquilo, mas fazer o que? Não sou de briga. Quando o ônibus se aproximou, fiz sinal para que o motorista parasse. Assim que entrei, os caras também subiram. Falavam alto, gesticulavam excessivamente e faziam alvoroço. Na hora em que iam passando a roleta, fingi que ia tirar uma dúvida com o motorista e desci imediatamente. Pensa que me livrei dos caras? Na mesma hora em que me viram fora do ônibus, os dois se puseram a gritar: Para, motorista. Pelo amor de Deus. Motorista, para. Nossa colega ficou! Pra quê? O ônibus entrou em polvorosa: todo mundo correu pra janela na intenção de ver o que tava acontecendo.” Este meu amigo costuma dizer que tem Manoel que não é mané, mas tem Odair (é só um exemplo) que é. No dia em que isso ocorreu, no entanto, ele afirma que se sentiu constrangido, um verdadeiro mané. Se tivesse denunciado, o inusitado logo se constataria. Os papéis de agressor e vítima (algo raro) estavam invertidos. Um caso fabuloso pra justiça brasileira: o lobo em pele de ovelha – longe de qualquer maledicência ou atitude politicamente incorreta.


*Odair de Morais é escritor e colabora com o DC Ilustrado

domingo, 2 de maio de 2010

CRÔNICA
Rafael




“Os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.” (Isaías, 35:8)
Há dois anos assistia futebol na sala com os filhos. Até que, de uma hora pra outra, passou a agir de maneira estranha, realmente esquisita. Uma tarde desapareceu. Ausentou-se durante dias. Foi encontrado vagando maltrapilho pelos arrabaldes. Desordenadamente, à procura de sua casa.
Sábado, três horas da tarde, a camisa aberta no peito, arrepende-se de atitudes remotas que tomara inconsequentemente – muitas, a esposa sequer imaginava que tivessem acontecido. Lamenta-se. “Eu não devia ter feito isso...” Revela segredos ocultos durante décadas.
Sentado na cadeira de balanço é flagrado pela velha. Dizia: “Túnica, vem cá. Vem cá, Túnica.” Como se alguém estivesse junto dele. Aos oitenta anos, os cabelos brancos, coitado, delira. Recebe com carinho a visita dos parentes mortos.
“Com quem você está conversando aí, Rafael?”, pergunta a velha. Na presença dos familiares, finge lucidez. “Eu?... com ninguém, ora. Quem disse?!”
“Não tem vergonha não, velho? Fica ai sozinho, dizendo bobagem, passa gente no portão vai pensar que você está ficando maluco!”
Humilhado, não demora muito ele entra para o quarto.
A todo momento se lembra de que é preciso ir embora. “Estão me chamando.” Quem?, indagam. Entre frases desconexas, balbucia: “Minha casa não é aqui”, e põe-se a girar no quintal; braços abertos, olhando para o céu. “Onde é então?”
Toma remédio controlado: tão forte, adormece no sofá assim que o ingere. “Só assim ele dá sossego.”
Acorda de madrugada, quatro horas está de pé. Se a esposa não acorda a tempo, ele abre a porta (pensando ser a do banheiro), urina dentro do guarda-roupa.
“Tenho que ir...”
Quando moço, orgulhava-se. Quase fora, como pracinha, combater na Segunda Grande Guerra. Quase. Fora convocado. Iria à Europa. Mas, nos dias que antecediam o embarque – enquanto se despedia dos parentes, com bravura: “Servir a Pátria” –, recebeu a triste notícia de que os nossos inimigos alemães já haviam sido derrotados, e ele não mais guerrearia contra os nazistas. Não mais se integraria à Força Expedicionária Brasileira. Nem haveria de ganhar pelo seu mérito medalha alguma. Hoje murmura: “Eu teria morrido na guerra.”
De hora em hora os filhos se revezam na sentinela. “Por que não morre logo?... Droga!” Quem dá as ordens é a mãe: “Não deixe ele aí sozinho.” “Hora do banho.” “Cuidado, tira essa faca da mão dele!” E se por acaso ele sussurra de novo: “Tenho que ir”, ela grita, de onde estiver: “Tranca o portão!” E logo alguém prestativo corre com o cadeado.
A esposa sofre junto. Todos os dias, pela manhã, passeia agarrada ao braço dele. De manhã, bem cedo. “Só com Lenita.” Senão protesta: “Me larga”, grita, quer fugir. Os vizinhos: “É normal”, dizem. “Nessa idade a gente volta a ser criança.” Então ela o leva ao passeio: “Pra ver se ele distrai.” Na volta, ouve-o consternada resmungar: “Minhas pernas doem, Lenita.” Depois, os dois velhinhos passam longas horas na varanda, defronte do pequeno jardim. Lá fora, sol forte às duas horas da tarde: ninguém na rua... A romã amadurece no pé. As flores, lindas! A samambaia. Uma folha seca desprende-se do galho, cai bem devagar no capim rasteiro. Um passarinho brinca alegre na grama. Ao voar, com alguma coisa no bico descreve meia parábola:
“Olha lá!”
“O que, Rafael?”
“Um passarinho.”

Odair de Morais é escritor e colabora com o DC Ilustrado.
Professor_odair@hotmail.com

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CRÔNICA
Dente por dente

O mais curto conto que escrevi possui uma única palavra. Na verdade, são seis, se o considerarmos desde o título. Confira: “Nunca mais vimos ele sorrir. Banguela.” Apesar do título longo, não dá pra negar a concisão do enredo: é um texto bastante curto. No que se refere ao conteúdo, pode-se imaginar inúmeras situações a partir de suas poucas palavras. Há um humor pungente ali. Dói.
Não vou explicar qual era a minha intenção ao escrevê-lo. Nem me pergunte nada, leitor, para que a gente não fique mal na fita. Mário Quintana dizia que “quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”. Aforismos à parte, verdade é que o simples fato de tentar explicá-lo, faria com que o texto perdesse absolutamente a graça. Perder a graça é força de expressão, pois, exceto no caso de humoristas profissionais, nunca consegui enxergar motivo de riso num sujeito sem dentes.
Rola um vídeo na internet no qual Wagner Montes, apresentador do programa Balanço Geral, da Record, perde a sua prótese (me refiro ao dente) ao vivo e, pego de surpresa, não pode ao menos exibir um sorriso amarelo. Com o perdão do trocadilho. Era um de seus dentes frontais.




Situação não menos vexatória passara, em 2007, a ex-senadora Heloísa Helena, atual presidente do PSOL. Durante um debate sobre reforma política, em um programa ao vivo da TV Cultura, Heloisa Helena se viu em uma verdadeira saia justa, muito diferente das quais costuma usar. Enquanto discursava, a senadora ficou subitamente desfalcada de seu pivô. Teve por isso que encerrar a sua fala de forma sucinta. Algo raro, mas compreensível. Ficar sem um pivô pode ser tão prejudicial quanto perder um zagueiro depois de ter feito a terceira substituição.




Falei de casos ilustres (e pitorescos) ocorridos na alta sociedade, mas estes acontecem, principalmente, entre a ralé. Rubem Fonseca tem um conto exemplar que ilustra um fato semelhante em "O Cobrador" (Nova Fronteira, RJ, 1979). No conto homônimo, um favelado se dirige ao consultório do dentista. Aguarda, com o dente latejando, durante meia hora até ser atendido. Ao ser examinado, o dentista pergunta como é que ele tinha deixado os seus dentes ficarem em estado tão deplorável. Indiferente às questões sociais, trata o sujeito com completo descaso: “Vou ter que arrancar”, ele disse, “o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui.”
É. Tempos atrás a dor também era sentida no bolso dos que se sentavam na cadeira do dentista. Recentemente, porém, com a proliferação dos planos odontológicos populares a coisa começou a mudar. Já reparou quantas pessoas estão usando aparelhos nos dentes? De todas as classes sociais, de todas as idades. Me lembro que usar aparelho dentário já foi sinal de distinção social, assim como possuir um aparelho celular. Mas isso foi no século passado, quando a gente presenciava, até com certa frequencia, cenas constrangedoras protagonizadas por amigos que não iam com regularidade ao dentista.
Um vizinho certa vez perdeu o dente brincado com irmão mais novo no quintal de casa. Após um arremate de primeira do irmãozinho, ele pode certificar-se do estrago causado por uma bola de plástico. Ironicamente, conhecida por dente-de-leite. Aquele dente traiçoeiro escondia um problema gravíssimo. Apodrecera por dentro, sem dar alarmes. E, sem ninguém para diagnosticá-lo, um dia simplesmente caiu. Acompanhamos a partir de então a ruína de seu sorriso. Em outra ocasião, este mesmo desafortunado vizinho (não apenas no sentido financeiro), ao gargalhar em cima de uma árvore perdeu sua prótese. Que, por sinal, não era boa. Pra piorar, sua casa estava em reformas. Havia cascalho espalhado por todo o quintal. Embora ele nos implorasse para ajudá-lo, foi impossível achar a agulha no palheiro. Não quero aqui fazer propaganda odontológica, mas não custa nada lembrar. Visite regularmente o seu dentista.

Odair de Morais é escritor e colabora com o DC Ilustrado
professor_odair@hotmail.com